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something's gotta give
rosas
innersmile
Foi há mais de vinte e cinco anos e ela foi a primeira rapariga por quem me apaixonei (apesar de eu na altura ser um puto, ter para aí dezasseis ou dezassete anos e ela ser já uma mulher com uns trinta anos). Era bonita, inteligente, faladora, usava gravatas largas, jogava ténis e conduzia desenfreadamente um VW Beetle pelas ruas da cidade. Chamava-se Annie Hall, e era natural do Wisconsin, da região de Chippewa Falls, onde, muitos anos depois, vivi durante três meses.
Depois disso, outras raparigas foram destronando Annie do lugar principal no meu coração, apesar de algumas delas terem sido verdadeiras tentativas de encontrar uma Annie de carne e osso. Mas sempre que vejo Diane Keaton no ecrã, lembro-me de Annie e desse meu arrebatado e adolescente amor.
Não que Diane Keaton seja uma grande actriz (num sentido merylstreepiano do termo), mas é inegavelmente uma grande estrela de cinema, e sempre que a vemos num papel é sempre a Diane Keaton a fazer de qualquer coisa, por exemplo, a Diane Keaton a fazer de mulher do Michael Corleone ou a fazer de Louise Bryant, a companheira de John Reed em Reds. Mas é precisamente por isso que, sempre que vejo a Diane Keaton no ecrã, é da Annie Hall que me lembro. E é sobretudo isso, e sobretudo disso que vive Something’s Gotta Give, uma comédia romântica de Nancy Meyers, com a Diane Keaton, claro, a fazer o par romântico com o Jack Nicholson.
E se o par romântico prometia, forçoso é reconhecer que o filme é muito pobrezinho, aliás, cinema é coisa que nem sequer chegou a passar por ali. Se há duas ou três cenas divertidas, a verdade é que a maior parte do tempo o filme arrasta-se sem graça e sem leveza, entre cenários de estúdio e exteriores que parecem tirados de um livro de clichés, com o Jack a preguiçar uma imitação do Jack Nicholson a fazer papeis de engatatão malandro (e tão longe do génio de About Schmidt, para ficar só pelo mais recente).
Tenho, no entanto, de reconhecer que, para além da Diane Keaton, houve uma cena no filme que me entusiasmou, a única que achei verdadeiramente bem conseguida: é a cena na cama a seguir ao Jack e à Diane terem tido relações sexuais pela primeira vez, em que a câmara se deleita a mostrar, em pleno langor pós-coito, dois corpos envelhecidos, marcados pelas rugas do tempo, e pela flacidez da idade. Não é muito frequente o cinema, sobretudo aquele que vive de e para o grande público consumidor de filmes, que são sobretudo os jovens, demorar-se assim a olhar para os corpos de dois velhos, e, por breves e fugazes momentos, a questionar-se sobre o amor nessa fase da vida em que o corpo anuncia já a proximidade do fim.
Só mais duas notas finais (pareço o professor Martelo). Uma para o desperdício da Frances McDormand e do Keanu Reeves: ela porque é muito talentosa e neste filme se limita a fazer olhinhos, e ele porque é muito bonito e nestes papeis mais românticos é tão destituído de charme que até faz sono. A outra nota é para a canção do Paul Simon que se ouve no final do filme. Ainda hoje falei dele aqui no innersmile, e é sempre uma emoção reconhecer a voz e o estilo inconfundível do Simon, assim quando não se está à espera.
Este vício de escrever entradas intermináveis é tão grande, que até a propósito de um filme de que não gostei muito estou para aqui a enrolar e a gastar bytes e minutos de acesso à internet.
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