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lost in translation
rosas
innersmile
Há filmes que nos chamam, e há filmes que nos chamam desde longe. Este, andava a chamar-me há muito tempo. De modo que ontem acabei de jantar, meti-me no carro, entrei na auto-estrada, saí em Aveiro e fui ao Oita.
E valeu bem a pena. Lost In Translation é um filme diferente, estimulante e divertido. Parte de um dispositivo muito simples: um actor de cinema em fase descendente e obrigado a fazer a ronda do mercado publicitário encontra-se, num hotel em Tóquio, com a jovem esposa negligenciada e em avançado estado de dúvida pelo seu marido fotógrafo. Como disse Bill Murray na apresentação do filme na cerimónia dos oscars, um homem perdido e uma mulher esquecida. Mas o que é admirável no filme é a forma como ele se vai construindo. Desde logo, a maneira como as personagens nos são apresentadas, como se o olhar da câmara fosse quase neutro, sem recorte psicológico, vivendo quase exclusivamente da capacidade dos actores darem corpo às personagens. O resultado é surpreendente, porque passados poucos minutos estamos completamente ‘agarrados’ à verdade dos personagens, acreditamos no inefável vazio que o acumular de estímulos sensoriais lhes provoca, somos cúmplices do seu desencanto afectivo. Depois o desenvolvimento narrativo do progressivo envolvimento entre os dois é sempre feito no domínio do subtil, as verdades nunca nos são apresentadas com a certeza e a definição de um dado estatístico ou um registo biográfico, porque, sabemo-lo todos, nas nossas vidas as coisas nunca são assim a preto e branco. Finalmente, tudo é feito com humor, com leveza, com um tom muito cool, para o que contribui decisivamente o registo que Bill Murray empresta ao seu desempenho.
Mas há muitas outras coisas que ajudam a fazer de LiT um filme muito especial. A banda sonora, por exemplo, e refiro-me não só à trilha musical, mas a todo o registo sonoro do filme, que é tanto para ouvir como para ver. Não há muitos filmes assim, que saibam explorar tão bem, do ponto de vista narrativo, a captação do som; se estivermos com atenção, aquilo que estamos a ouvir está-nos sempre a contar coisas acerca das personagens, do próprio evoluir da história. Outra irresistível qualidade do filme, que aliás o define, é a sua ligação diria orgânica à cidade que lhe serve de cenário. Aquela história passa-se em Tóquio, e só em Tóquio se poderia passar, ou pelo menos daquela forma. O constante ruído de fundo, sonoro e visual, o feerismo das imagens, a forma como o filme nos apresenta uma cidade que em cada fotograma parece sempre ultrapassar o tamanho do homem que a criou (é sempre uma cidade maior que o homem, quase ao ponto da angústia), a sensação recorrente de que se está num planeta diferente, numa realidade mirabolante e completamente "dessintonizada", são sempre o contraponto indispensável ao deambular das personagens. A metáfora do título também contribui para esta espécie de desacerto entre o que se passa ao nosso redor e o que se passa ‘cá’ dentro, como se houvesse sempre alguma coisa que se perde na tradução que os olhos da nossa alma fazem do mundo à nossa volta.
Aliás, para mim o filme foi sempre vivido nesse confronto entre a saturação do meio e o esvaziamento interior sentido pelos personagens, como se o próprio filme se sentisse perplexo pela possibilidade de duas pessoas que se sentem tão vazias se poderem encontrar no meio do caos.
Um filme a rever, que assegura, através de Sofia (que foi a primeira mulher a ser nomeada para os oscars de melhor filme e melhor realizador), que o nome Coppola continua a brilhar intensamente no universo estrelar de Hollywood.
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