March 1st, 2004

rosas

oscars

Normalmente ainda consigo resistir até ao oscar da melhor actriz ou da melhor fotografia, mas desta vez nem consegui passar do tapete vermelho. Já me irritei muito com o facto de que quando eu podia passar a noite toda acordado a ver os oscars, nunca passava na televisão, agora que não posso ficar acordado passam tudo e mais alguma coisa.
Mas a verdade é que este ano passei completamente ao lado dos oscars. Para dizer a verdade, nem sei muito bem quem foram os nomeados, para poder aquilatar da justeza dos vencedores. Além disso, já há muito me habituei a desvalorizar, de um ponto de vista de gosto pessoal, claro, os prémios da Academia. Para mim, eles valem sobretudo por três coisas: pela celebração do cinema – os oscars são ‘a’ festa do cinema, quer se goste deles quer não, quer se goste de cinema norte-americano quer não; pelo espectáculo – qualquer outro espectáculo com a duração de quatro ou cinco horas era um pastelão insuportável e interminável, mas a Academia consegue fazer uma coisa engraçada, com ritmo, com humor; e finalmente pela oportunidade de vermos o estado do ‘glamour’ made in hollywood, os vestidos e os penteados das moças, os sorrisos sardónicos dos moços – os oscars são uma espécie de ‘peeping tom’ para a vida das estrelas de cinema (ou, pelo menos, para aquela parte da vida das estrelas encenada para ‘paparazzi’ ver). Claro que de fora fica a principal razão de ser dos oscars, que é o facto de os galardões aumentarem significativamente o valor de mercado dos filmes e dos artistas vencedores.
Bom, e a razão do meu relativo desinteresse pelos prémios da Academia deste ano prende-se, sobretudo, com o facto de não haver nenhum filme que estivesse na corrida que eu gostava que ganhasse. Lembro-me que o ano passado, ou lá quando é que foi, eu queria que o Chicago ganhasse e estive a torcer pelo filme. Este ano havia um vencedor anunciado, O Senhor dos Anéis, e eu, muito francamente, acho que não me contaminei pelo fabuloso e encantado mundo de Tolkien. Aliás, nem sequer estou a dizer que não gostei, até porque só vi o primeiro filme da série, é mesmo um daqueles casos em que o universo narrativo do LOTR não me estimula muito, e eu mantive-me mais ou menos à margem da saga. Sendo o filme de Jackson um vencedor anunciado, devo dizer que tal não me desagrada, acho até que tratando-se de empresa cinematográfica de tal dimensão e arrojo, ou a trilogia era o fracasso absoluto ou então um êxito de tal ordem que marcaria para sempre este tipo de narrativas no cinema de grande indústria. O que penso ter sido o caso, e por isso parece-me justo que os oscars tenham compensado tão generosamente tal esforço e empenhamento.
Nesse caso, há ainda assim duas ou três coisas que me interessam: os oscars da representação masculina para duas interpretações do filme Mystic River, com o fabuloso Sean Penn a levar o prémio de melhor actor e o seguríssimo e perturbante Tim Robbins, o de melhor actor secundário. Bela recompensa, ainda que indirectamente, para Clint Eastwood, que sendo um dos maiores realizadores do cinema clássico americano, e para mais um (ex)actor, sabe que a magia do cinema passa também por devolver ao corpo e aos olhos dos actores toda a razão de ser de uma história que se quer contar.
Os dois prémios, e um deles bastante importante, o de melhor Fotografia, para Master And Commander. Ainda que fosse um filme com falhas, este épico naval de Peter Weir repousava na tentativa de fazer como que uma reconstrução (ou reconstituição) de um sub-género clássico do cinema de aventuras norte-americano. E quando se é apaixonado pelos dispositivos narrativos dos grandes géneros da cinematografia de Hollywood, é sempre interessante ver como estas coisas funcionam e até porque é que falham.
O oscar para melhor argumento original premeia muitas vezes o arrojo que o futuro promete mas que o presente ainda não se sente muito confortável para distinguir. Tudo isso, vem adensar a minha vontade de ver o filme da Sofia Coppola, que ainda não consegui ver, Lost In Translation.
Não vi ainda nenhum footage da cerimónia de ontem, e por isso não sei como foi a entrega do prémio honorário a Blake Edwards. Mas esta parte da cerimónia costuma ser das mais entusiasmantes, porque é daquelas em que lá o pessoal se livra da pressão competitiva e se pode entregar, com gozo ainda que com algum sentido de auto-adulação, a celebrar os nomes maiores da indústria. E não há dúvidas de que Edwards é um desses nomes grandes do cinema de entertenimento, nomeadamente da comédia, de que foi um dos cultores, e que marcou o género, nas décadas de 60, 70 e 80: Breakfast At Tiffanys (com a inolvidável Audrey Hepburn), a série da Pantera Cor de Rosa (com o fulgurante Peter Sellers e a música de Henry Mancini), 10 (que criou um cliché da mulher perfeita, com o corpo da Bo Derek e deu um novo sentido ao Bolero de Ravel) e finalmente Victor/Victoria (que deu à sua mulher Julie Andrews um dos seus melhores papeis; ela que, num filme anterior de Edwards, SOB, tinha dado escândalo ao aparecer de seios desnudados, contrariando a imagem angelical que lhe ficou associada com o Música no Coração e o Mary Poppins). Bastavam estes filmes, numa carreira que contou com muitíssimos mais, para Blake Edwards merecer o oscar honorário.