February 15th, 2004

rosas

anything else

Fim de semana diferente do habitual. Na sexta-feira fui para a Póvoa, passei a noite com os primos para no Sábado de manhã acordar cedinho e ir para Guilhabreu, fazer o curso de condução defensiva. Foi um dia animado, em acção de formação, a aprender coisas muito úteis e importantes sobre o nosso comportamento ao volante, sobre o comportamento dos outros e sobre o comportamento os nossos carros. Basicamente, a ideia do curso é aprender que há limites, e ficar a conhecer alguns desses limites. O grupo de 11 pessoas era muito animado e divertido, os formadores eram simpáticos e competentes, o dia passou a voar, mas claro que os pontos altos da jornada foram sempre os teste. O mais espectacular foi o de guiar os carros com a direcção completamente desequilibrada (tiram uma das rodas traseiras e substituem-na por rodinhas pequeninas só para dar apoio), ou seja, púnhamos o carro a andar e à primeira curva eram altos piões. Deu para segurar o carro algumas vezes, naquelas em que ia a 20 km/hora (!), consegui fazer o slalom sem virar (virar é linguagem ‘pro’ para dar piões...), mas foi óptimo porque fiquei a conhecer a sensação de estar ao volante de um carro que está a dar piões. Também espectacular a pista de travagens, toda molhada, e de onde saiam repuxos de água a fazer de obstáculos. Esta parte terminou com quem queria a ir buscar os seus próprios carros para fazer as travagens; claro que eu não perdi a oportunidade de fazer um pouco de musculação ao ABS do meu carro! Ah!, e entre as bombas presentes dos outros participantes (BMW, Mazda 6), o meu leãozinho era o único que tinha EPS (agora estou a fazer aquela cara palerma de contentamento orgulhoso que consiste em semicerrar os olhos e abrir a boca num sorrizinho imbecil)

No caminho de regresso, parei no Arrábida Shopping para ver Anything Else, o mais recente filme de Woody Allen. O filme pareceu-me querer ser uma espécie de Annie Hall Revisited, para o ano 2000: o mesmo tipo estrelar de personagens (personagens à volta das quais parece rodar todo o universo, narrativo e não só), o mesmo tipo de narrativa interrompida por falas directas para o público, ora de carácter filosófico ora simples piadas aparentemente inofensivas mas que desempenham um papel no desenvolvimento narrativo do filme, os mesmos flashbacks não anunciados, até a afirmação da costa leste, ou seja, da LA da indústria cinematográfica norte-americana como impossível ponto de fuga da imprescindível claustrofobia nova-iorquina. Dir-se-ia que Dobel podia muito ser a versão envelhecida (20 anos depois) de Alvy Singer, tal como Jerry Falk poderia muito ser a promessa de um novo Alvy, tal como Amanda nunca anda muito longe de ser uma actualização de Annie.
E no entanto, o filme, sob esse ponto de vista, mas não só, parece-me ser um fracasso. A começar, aliás, pelas personagens, que parecem nunca passar de estereótipos, de projectos de personagens. Uma das grandes qualidades do cinema de Allen é a absoluta verosimilhança, ‘come rain ou come shine, das suas personagens, e aqui nem por um momento eu consegui acreditar nelas. Não sei se Jason Biggs foi um erro de casting, mas havia uma opacidade no seu olhar, uma falta de fulgor, a sua perplexidade perante os outros e o mundo sempre me soou demasiadamente ‘painting by numbers’, como aqueles esquemas que se põem no chão para aprender os passos de determinada dança.
Ou então era eu que estava cansado e não consegui aderir ao filme, nunca me consegui encantar com o que se passava no ecrã. Claro que sendo eu um woodyófilo do terceiro grau e membro da Igreja Alleniana de Todos-os-Dias, um filme de Woody Allen é como o sexo para a Mae West: mesmo quando é mau, é bom. E claro que me diverti com as piadas, com aquele clima de caos controlado, a-d-o-r-e-i a raríssima e fascinante Stockard Channing, delirei com as paranóias do Dobel, que estão sempre um passinho à frente das nossas pequenas paranóias quotidianas. Mas de um filme do WA eu espero sempre sair com aquela sensação de que podemos levantar voo ao som de ‘I’m Thru With Love’ numa margem do Sena. E desta vez isso esteve um pouco longe de acontecer.