February 10th, 2004

rosas

(no subject)

Ontem a Petra apagou o seu livejournal, e esse facto merece ser assinalado.
A verdade é que quando dei por ela, fiquei muito triste. Já escrevi aqui que uma das coisas boas do livejournal é o espírito de comunidade, que pode ser umas vezes mais forte ou evidente, e outras mais ténue e, digamos assim, mais virtual. Mas que é importante, por sabermos que há sempre alguém que nos lê, que para esse alguém não é completamente indiferente o que escrevemos, e até que esse alguém sentirá ao menos um réstia de afecto pelo que de nós transparece na escrita.
Espero que ninguém se ofenda ou sinta menosprezado pelo que eu vou escrever nesta entrada, mas a verdade é que, de todos os queridíssimos amigos e demais companheiros de ‘friends list’, há três pessoas para mim muito especiais.
O Mário, que já é só praticamente um ‘livejournaleiro’ virtual, mas que me ofereceu amizade daquela verdadeira, da que se pode tocar e cheirar, e, ainda por cima, me abriu as portas da sua casa e os afectos da sua família, que é uma das coisas mais fantásticas que há. Só quem conhece a bonomia humorada e a sofisticação simples da A., a inteligência e o humor da J., a ousadia irreverente da R., e, já agora, o langor cúmplice do P. [;)], pode saber do que falo.
O Bruno é um tipo especialíssimo. Não há vaidade nisto que vou dizer, nem psicologia de trazer por casa, mas por vezes quando olho para ele, parece-me uma versão melhorada (muito melhorada) de mim próprio. Não é que sejamos parecidos, mas partilhamos uma certa sensibilidade, ‘un certain regard’, de prestar atenção ao mesmo tipo de detalhes. Claro que ele é mais talentoso, muito mais, e por isso o meu olhar é também de admiração e até de algum orgulho um pouco paternal, que tem mais a ver com o afecto do que com a razão.
E depois a Petra! A Petra é uma força da natureza, ‘bigger than life’, é, como no poema do Régio, ‘um átomo a mais que se animou’. Talvez por eu ser um tipo muito (demasiado?) contemplativo, passivo e pouco ambicioso (no bom sentido da palavra), a Petra, para mim, é assim uma espécie de transfusão de vida, uma garrafa de oxigénio a que por vezes precisamos de recorrer para nos recuperarmos da atmosfera muito rarefeita de emoções e sentimentos, de paixões e entregas cegas e furiosas, em que nos habituámos a viver. Quer dizer, a Petra canta blues, não é?, sopra-lhe do peito o mesmo sopro de humanidade pungente que animou a Billie Holiday ou a Nina Simone, de modo que não é preciso dizer muito mais, não é?
Estes três amigos, deu-mos o livejournal. Quase que não consigo pensar neles, sem pensar no livejournal. E é interessante que, primeiro o Mário e agora a Petra, acabaram com os seus livejournals (o do Mário continua activo, no entanto), e eu e o Bruno, que fomos os primeiros, ainda por cá nos mantemos. Porque também nisso eu e ele temos alguma coisa em comum, ambos usamos o livejournal de uma forma apesar de tudo idêntica, como se os nossos livejournals fossem não tanto um meio de expressão, um projecto, digamos, como o Mário e a Petra usaram, mas mais como um instrumento, um aparelho, um meio auxiliar de nos relacionarmos com o mundo. Por vezes são cadernos de apontamentos onde registamos acontecimentos que não queremos que se percam na poeira da memória; outras vezes, são caderninhos de textos, mais ou menos poéticos, mais ou menos íntimos (e porque não dizê-lo?, mais ou menos adolescentes...), que não conseguimos deixar de escrever, porque isso nos alivia de alguma angústia, de alguma pressão, porque isso nos ajuda a reconciliar com o ‘país dos outros’, ou apenas porque isso nos liberta da claustrofobia de termos de viver no limite de dentro da nossa própria pele. Ou, na maior parte das vezes, são blocos de notas (daqueles tipo Castelo que se usavam antigamente, e suponho que ainda se usam nos escritórios) que apontamos para nos ajudar a racionalizar emoções, sentimentos, ideias. É por isso curioso que tendo sido dos primeiros a chegar ao livejournal, eu e o Bruno não só nos mantemos por cá, como nos mantemos mais ou menos da mesma forma, pelo menos no essencial. Até nesta coisa prosaica de eu ser mais regular e uniforme e ele mais ocasional e torrencial.
Ok, e então chegados aqui para que é que serve esta entrada? Serve para dizer aos meus amigos, a todos mas, neste momento, em especial ao Mário, ao Bruno e à Petra, que gosto muito deles. Para dizer que tenho pena que a Petra tenha apagado o livejournal dela, tal como tive quando o Mário trocou o livejournal por outras paragens que mais o estimulavam. Serve só para dizer obrigado. Pronto.
rosas

fio do horizonte

”Levanto-me despreocupado e desprevenido e o espelho agarra-me furtivamente para me dizer: já viste que o teu olhar não é o teu olhar, que és agora igual ao olhar de Humphrey Bogart? Ou então: já viste que tens no rosto a fúria e o desespero do John Cassavetes? Ou ainda: já viste que tens uma face semelhante à de Anthony Hopkins? E eu estremecia de surpresa, júbilo e medo. Finalmente a vida ia tornar-se interessante - mas a que preço? O de amar em Casablanca? O de beber garrafas sem conta? O de comer corpo humanos? Por instantes tinha havido um entusiasmo louco, mas depois pedi aos deuses que me fizessem regressar ao meu rosto já banalizado e medíocre, sem aventura nem violência, apenas um homem entre os homens, igual a todos os homens (é uma citação, mas de quem?).
Citações, excitações. Não meu, não meu é quanto escrevo, digo para citar Pessoa, e a sua convicção de que um fio nos prende ao outro lado do espelho e de que é aí, nesse lugar obscuro, nessa caverna de um tesouro oculto pelo nevoeiro dos mares, que as palavras começa a nascer, fatais, inexoráveis, deslumbrantes, surpreendentes, enigmáticas. Uma gralha é uma gralha, um pássaro tresloucado que pousa num texto. Uma fotografia trocada é um problema de identidade, é uma interrogação sem fim, é um ideal e um pesadelo: face a face com o outro que está dentro de mim, desacredito o mesmo que julgava ser e faço o balanço instável da minha vida. Se ele tivesse escrito o que escrevi, se eu tivesse escrito o que ele escreveu, onde é que um dia nos cruzaríamos sem nunca nos reconhecermos?”


Esta longa citação, é da crónica de hoje, no Público, do Eduardo Prado Coelho. Este tipo quando é bom, é muito bom.
A crónica está toda ela admirável, é um exercício, carregado daquela ternura irónica (ou será ironia terna?) que o EPC domina como mais ninguém, para dar conta desse enorme espanto que é vermo-nos, de repente, com o rosto de outro. Isto que vou dizer pode parecer estúpido e pueril, mas gostava que nos meus melhores dias aquilo que escrevo pudesse ter um bocadinho do assombro e da subtileza, da clarividência e da iluminação, que tem este trecho do EPC.