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avenida sá da bandeira
rosas
innersmile
AVENIDA SÁ DA BANDEIRA

A solidão, em certas madrugadas, é uma canção ouvida na rádio.
É o desenho das tuas costas, quando te afastas.
É a tua silhueta quando te vejo ao passar, e tu estás na amurada de um navio, à espera de quem esteja de passagem.
São os pássaros tristes a dormir nos ramos da avenida.

A solidão, em madrugadas como esta, é o teu telefonema que não chega.
É o teu lugar vazio na almofada.
São as palavras que não me dizes.
É o ouro que me entregas com uma mão, com a mão que tens escondida atrás das costas, e que me tiras com os lábios, palavra a palavra, quando me dizes as mentiras em que quero acreditar, as únicas mentiras em que estou disposto a acreditar.

A solidão é uma árvore iluminada.
É um carro estacionado com ninguém lá dentro e os vidros cobertos de geada.
São os olhares que trocamos por cima das copas das árvores, de um lado ao outro deste rio onde os faróis dos automóveis são barcos salva-vidas.
És tu encostado à escada do centro comercial.

A solidão é uma hora que passa depressa.
É uma mancha.
É o espelho da casa de banho, embaciado.
É um café, bebido à pressa, quando o motor lá em baixo já está a trabalhar e um pássaro faz o ninho no desvão da varanda, no bolso vazio do roupão, no maço de cigarros amarrotado no cinzeiro, no cubo de gelo que se derrete devagar na alcatifa.

A solidão é quando não sabes, ou finges esquecer.
É quando não tens mais nada para dar e dás uma desculpa.
É quando atiras um livro para o fundo da estante sem o ler, sem sequer o ter aberto, sem saber sequer se o título do livro é o que está escrito na capa.
É quando finges que não me vês.
É quando perdes o casaco com a etiqueta voltada para fora e o dinheiro espalhado no chão do quarto.

A solidão é quando não vens, e o mar fica a ressoar sozinho no interior de um búzio.
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