February 8th, 2004

rosas

toda a nudez será castigada?

Abriu ontem no Centro de Artes Visuais uma exposição de Jemima Stehli. Fotos de grande formato, que mostram, na sua grande maioria, o corpo nu da artista, num trabalho que anda à volta de temas como a estética da exposição do corpo, os estereótipos ligados ao género, a sexualidade e o desejo e respectivas representações.
Fiquei impressionado com a exposição. Em parte por causa do formato das obras, sou sempre muito sensível a fotografia de grande formato. Depois por causa da forma "despida" como as fotografias se apresentam, e aqui o "pun" é "intended". A nudez é, apesar dos tabus e da queda dos tabus, o lugar limite da experiência do corpo, ou melhor, da experiência pública do corpo. Normalmente associada à intimidade, mesmo quando é 'devassada' pelo olho da câmara é-o geralmente enquanto retrato de uma intimidade. Nada disso nestas fotos de Jemima Stehli, onde a intimidade possível é a que se estabelece entre a nudez 'desprotegida', despida, da artista e o olhar do espectador.
Fascinante é de igual forma o modo como as fotografias são de uma simplicidade absoluta, completamente 'despidas' de artifícios ou efeitos simbólicos, e onde apenas a presença de raros elementos lhe dão, por assim dizer, a carga, ou a mais-valia, artística. Por exemplo, a presença do disparador remoto, que nos remete imediata e eficazmente, para o plano do próprio conceito de fotografia enquanto meio de expressão artística.
Há uma série admirável intitulada 'strip' em que vemos, em shots sucessivos, a artista de costas para a câmara em diversas fases do processo de se despir, e de frente para homens que seguram o obturador remoto e que estão, eles sim, de frente para nós, que somos de certa forma espectadores já não tanto do strip mas destes outros espectadores, que medeiam assim o olhar directo de quem olha para as fotos.
Para além desta série, as minhas fotografias preferidas da exposição são um conjunto de quatro fotos a preto e branco que remetem para a fotografia (não necessariamente artística, como se chama a atenção num texto) de Helmut Newton, o fotógrafo recentemente falecido. Em duas destas fotos, é ainda o corpo da fotógrafa que se nos oferece numa espécie de reconstrução de uma determinada pose um pouco fálica, típica do trabalho de HN e de um certo imaginário erótico masculino. As outras duas fotos são auto-retratos em que a artista aparece vestida, com a cara encoberta, manuseando a câmara fotográfica, e ao lado de duas modelos nuas elas sim em poses à HN. A quantidade de leituras, de 'camadas' de leituras, que encerram estes quatro trabalhor, é deveras estimulante.
Tenho a certeza que esta exposição de Jemima Stehli será um dos momentos altos da programação do CAV este ano.