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big fish
rosas
innersmile
Felizmente há o cinema.

Provavelmente, não é o melhor filme de Tim Burton, sim, não será certamente. Mas Big Fish é com certeza um dos mais bonitos, se não o mais belo filme de Burton. Porque é um filme todo escrito com o coração, porque é um filme divertidíssimo e ao mesmo tempo profundamente triste, ou não fosse a tristeza a morada mais funda da beleza.
E nem me parece que seja um filme assim tão espúrio na cinematografia de Burton, como já tenho lido por aí. Não só o filme se constrói sobre 'um certo olhar' que já nos habituámos a identificar como burtoniano, como todo o programa temático do filme não anda longe do universo de Burton. Ainda que aparentemente, mas só aparentemente, numa espécie de negativo em relação aos restantes, e mais 'típicos', filmes de Burton. O que é certo é que o filme traz Burton para um território mais luminoso, em que o sentido da tragédia que domina o cinema de Tim Burton se dilui, mas não desaparece, no ambiente mais caloroso, ou mais afectivo, do drama familiar. Será nesse aspecto um filme mais spielberguiano do que o costume, naquele pressuposto que eu tenho de que o Tim Burton e o Steven Spielberg são assim uma espécie de gémeos separados à nascença, um dado à luz, outro dado às sombras.
Mas como disse, parece-me que esse desvio é apenas aparente. Bloom não é uma personagem mais 'normalizada' do que os outros Edwards de Burton. A sua tragédia, que aqui se vive no seio familiar e já não no meio suburbano de Mãos-de-Tesoura, é ser um outsider aos olhos do filho, precisamente porque não consegue reconstruir a sua biografia noutros termos que não sejam os da sua fábula fantasiosa.
Mas deixemo-nos de tretas. O que fica deste filme é a sua espantosa beleza, uma tristeza dilacerante, o lugar da fábula como o único lugar possível da história de um homem.
E ficam também três actores notabilíssimos: o Ewan McGregor, claro, o Albert Finney, e a Jessica Lange a fazer-nos recordar o seu papel em All That Jazz, em que 'também' fazia de morte. Sim, porque durante todo o filme não pude evitar a sensação de que a personagem interpretada pela Jessica Lange era o verdadeiro paraíso, o único paraíso, que Edward Bloom procurava encontrar: o único sítio onde a realidade conseguia receber toda a fantasia que ele trazia para o mundo.

E agora para algo não tão completamente diferente. Durante todo o visionamento do filme, esteve-me sempre a revolver na cabeça um certo poema. Ao princípio, dadas as afinidades com o big fish que é o cerne metafórico do filme. Mas aos poucos porque me comecei a aperceber que os pontos de contacto entre o poema e o filme eram inúmeros, por vezes o filme não parecia mais que uma ilustração do poema, como se o Burton tivesse levado demasiado à letra a possibilidade de adaptar o poema para cinema!
Infelizmente, foi um poema um pouco prostituído na campanha da última eleição parlamentar, porque a mulher do tipo que é actual primeiro-ministro decidiu dedicá-lo ao marido no final de um comício. Sim, trata-se do famoso (e alguns dirão 'infâme') poema de Alexandre O'Neill, 'Sigamos o Cherne', e que tem como subtítulo, entre parentesis, "Depois de ver o filme «O Mundo do Silêncio» de Jacques-Yves Cousteau".
Cousteau, mas foi. Tentem fazer um esforço, e ler o poema para além do esterco da política. E tentem lá perceber se o filme não é tão deliciosamente colado ao poema. É assim:

Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa do passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...



Post scriptum para o Saint-Clair: este poema é, como podes constatar, lindíssimo, verdadeiramente admirável, e de um dos mais admiráveis poetas portugueses do século passado, o Alexandre O'Neill. A mulher do actual primeiro-ministro, na campanha das últimas eleições, leu-o num comício, dedicando-o ao marido. Como podes calcular, o rastilho do gozo pegou fogo e ainda hoje o petit-nom sarcástico do nosso PM é 'O Cherne'. O lado mau disto tudo, é que pelo caminho estragou-se um dos mais belos poemas escritos em língua portuguesa, um poema que fala de todos nós, e principalmente de 'nós', os que acreditam que a fábula é sempre melhor que o relato. Possam os teus olhos nús conseguir ler este poema em todo o seu esplendor e em toda a sua pureza.
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