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tremem as carnes
rosas
innersmile
Há uma frase da Natália Correia, no livro 'Não Percas a Rosa', que é um diário político, muito reaccionário mas também muito lúcido, que ela manteve entre o 25 de Abril de 74 e Dezembro de 1975, há, dizia eu, uma frase: "é possível trazermos em nós uma força invulnerável à alcateia (...) O meu ânimo é incoercível".
Sublinhei a frase. Aliás, transcrevi-a para a primeira página do livro e acrescentei-lhe uma data, Janeiro de 2004.


Há outra frase tremenda. É de Santa Teresa de Ávila, e eu conheço-a porque deu título e epígrafe a um livro do Truman Capote. O livro é a sua obra inacabada 'Answered Prayers', e a frase é mais ou menos isto: "mais lágrimas são derramadas por preces repondidas do que por preces sem resposta".
É uma frase admirável, poderosa como a mão vociferante de deus (esta da 'mão vociferante' saiu agora, nem percebo bem o que quer dizer, mas soa muito bem). Aos poucos, vai-se transformando mesmo numa maldição. Sobretudo porque eu sou muito supersticioso, característica de todos os medrosos (e de alguns merdosos também). Neste momento, é já uma frase que temo, que me assusta.

Esta entrada devia acabar aqui. Mas como eu gosto de entradas longas (gosto, de resto, que partilho com uma certa menina), parece-me apropriado transpor para aqui uma das mais perfeitas canções sobre o medo que conheço. Chama-se 'Como Um Sonho Acordado', é, claro, do Fausto, dessa obra-prima que é o 'Por Este Rio Acima'. É assim:

Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá no fundo
Tenho medo ó medo
Leva tudo é tudo teu
Mas deixa-me ir

Arrasta-me à côncava do fundo
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante

Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p'lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes


Voltando ao princípio, à frase da Natália Correia. Há dias em que me sinto realmente forte, 'invulnerável à alcateia'. Mas quando penso que estou já na praia, 'o medo ronda-me os sentidos, por baixo da minha pele'. Uma tentação enorme de achar que a ameaça vem de fora, que estou sob ataque cerrado, que os inimigos são os outros. Mas se lermos bem a frase de Natália Correia, o que lá está escrito, ainda que a tinta invisível, é que os lobos vivem cá dentro. Talvez porque, como ensina Santa Teresa, somos sempre aquilo que desejamos. Queixarmo-nos, então, é já só um tique, fazer beicinho, pedirmos aos outros a festa na cabeça que nos devolva a claridade.

Deixa lá isso. Vamos mas é dormir.