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conto: adro de baixo
rosas
innersmile
ADRO DE BAIXO

Podia ser já Primavera.

São oito horas da manhã do dia mais frio do ano, e a Praça 8 de Maio está cheia de pessoas apressadas a caminho dos empregos. Uma carrinha dos jornais desce a rampa de acesso à praça com os dois piscas ligados. Um empregado do Café Santa Cruz desfolha o Diário de Coimbra que foi comprar a tabacaria em frente. O sol está ainda demasiado obliquo, e restos da humidade da madrugada seguram-se às paredes sombrias dos prédios.

Há um movimento constante de pessoas a entrar e sair da Igreja de Santa Cruz, e antes que consigas sequer racionalizar o teu gesto, acabas de entrar pela porta do lado esquerdo e encostas-te à divisória do fundo. Há muita gente sentada nas cadeiras, mas a maioria das pessoas entra apressada, faz a genuflexão e o sinal da cruz, cerra o rosto numa oração e torna a sair. Outras ficam de pé, junto à divisória do fundo, ao teu lado. Algumas mexem os lábios num sussurro, mas tu não consegues perceber o que dizem.

Não consegues fazer o sinal da cruz, mas, mais por puro instinto de imitação do que por outra razão, começas a dizer um padre-nosso. Não te sai à primeira, tropeças nas frases, já não sabes a sequência certa. Recomeças, uma e outra vez, até que te parece que sai direito. A seguir encadeias uma ave-maria, é mais simples, sai bem logo à primeira tentativa. Tomas consciência de que estás a rezar e sobe-te à boca o travo amargo da repulsa. Debates-te: se não acreditas, para quem estás tu a rezar, estás a ser hipócrita, estás aflito e com medo e precisas de pedir ajuda, mas achas que não podes pedi-la a ninguém que tu conheças? Ouves a tua própria voz, em repetidas discussões em rodas de amigos, a escarnecer dos que dizem que têm fé. Decides, porque te está a saber bem rezar, que estás a rezar para alguma coisa em que acreditas, alguma coisa que está dentro de ti e que também está dentro de todas as frágeis criaturas que partilham contigo a igreja àquela hora da manhã. O interior da igreja é aconchegado, menos frio do que a rua, e a luz ambiente é suave e calorosa. Sentes-te bem. Sentes-te calmo, tranquilo. Uma tranquilidade física, que parece começar nas pernas e trepar pelo resto do corpo. Continuas a rezar e a deixares-te seduzir pelos rostos das pessoas à tua volta. Mesmo ao teu lado, tentas ler o rosto de uma mulher, que fita o altar ao fundo com ar sereno, mas é um rosto impenetrável, como se o tempo se tivesse suspendido no momento em que aquela mulher entrou na igreja e viu o corpo de Jesus estendido na cruz. A mulher tem a pele branca, sardenta, e os cabelos claros. Quando olhas indisfarçadamente pelo canto do olho, a mulher ajoelha-se, faz o sinal da cruz e sai da igreja apressada.

Quando sais de novo para a Praça, deixas dentro da igreja a noite por dormir. Não acreditas em milagres, mas o interior da igreja, a concentração dos crentes, a protecção do frio da rua, a grandeza do silêncio, o brilho dos círios, o rosto suspenso da mulher, alguma coisa dentro da igreja devolveu-te uma certa paz, e pela primeira vez olhas a manhã de sol como o princípio de um novo dia.

Viras para a rampa da Visconde da Luz e começas a subir a rua devagar. As mãos gelam-te, mas não as metes nos bolsos, apetece-te antes traze-las dançando ao lado do tronco, sentir nas mãos o ar cortante. Quando caminhamos de mãos nos bolsos, há um equilíbrio que se torna muito instável, parece que nos faltam as pontes do corpo para o mundo, corpo tropeça numa dança um pouco ébria. Ao invés, os braços e as mãos livres ganham o balanço da caminhada, sentem o ar como os lemes dos navios sentem as correntes do oceano, e, como o leme, são as mãos que te levam pela rua acima. Paras num café, tens de comer qualquer coisa, sentes fome. Apetece-te uma torrada e um galão, mas querias uma torrada do pão de forma da infância, não do pão industrial que usam agora nos cafés. Paciência, pensas tu, lá terá de ser o que há. Mas já te compensa a memória do cheiro do pão torrado com manteiga e do café com leite.

O alimento cai-te no estômago quase com estridência e transforma-se numa dor de cabeça que não tinhas sentido até aí. Sabes que é da fraqueza, não comes há muitas horas, não te lembras de teres comido alguma vez. O pão que há pouco te lembrava o sol da manhã, sabe-te agora à noite não dormida. Tens de comer, assobia-te ao ouvido o instinto de sobrevivência. Terá sido da igreja, será do cheiro morno do café, mas estás agora consciente de que o pior já passou. As mãos amornam-se no vidro do copo do galão. Há uma serenidade nesse calor que te sobe pelos braços e se espalha, em delta, pelo peito. Estou vivo, pensas tu com uma ponta de melodramatismo. O pior já passou e estou vivo.

Podia ser já Primavera e talvez esta noite não tivesse sido interminável. Talvez houvesse um sentido qualquer nas luzes intermitentes dos semáforos. Talvez o comboio de mercadorias da linha da Lousã não fosse apenas a sombra fugidia de um comboio fantasma. Talvez as sombras que adornam as esquinas tivessem rosto e não te olhassem com um vazio olhar de compaixão, a compaixão que sentem os barcos naufragados por outros barcos naufragados. Talvez a ponte fosse uma passagem e não o molhe apodrecido de um cais ao abandono. Talvez a água que o carro camarário espalha para lavar as ruas fosse um rio. Talvez o rio fosse um lençol estendido desde as luzes amarelas da curva da Lapa até ao corrimão suspenso do Açude, e te abraçasse o corpo em desequilíbrio estável. E talvez o seu leito escuro fosse suave como um convite e não o reflexo oco do teu corpo debruçado.

Talvez tu não tropeçasses numa pedra levantada do lancil e fosses cair de borco no teu próprio vómito. Ou no vómito de quem ali esteve antes de ti. Talvez corresse ainda em ti o sangue de Inês, quando te viste sozinho na praça deserta, ou se derramasse nas pedras em manchas cor de ferrugem. Talvez nas pedras ainda um nome que não paras de pronunciar e no entanto não te vem aos lábios qualquer som. Talvez para sempre não pares de olhar para trás e já não consigas de outro modo. Ou alguém que te chame, um corpo que se volta na cama ao teu lado e te salva do deserto a arder.

Talvez andes agora sem destino e te consumas num copo de veneno. Talvez bebas até à vaga sensação de que por baixo corre um rio e as pombas fazem o ninho no claustro abandonado de uma igreja. O grito das aves, o seu voo circular sobre a tua cabeça, ou o que quer que se estenda para o céu por cima dos teus ombros. Por onde anda agora a tua roupa rasgada? Vês-te às voltas nas ruas estreitas da baixa, sentas-te na calçada empedrada no Adro de Baixo e encostas a cabeça a uma parede obliqua, uma parede que não pára de deslizar para trás, que se afasta de ti e contra a qual te atiras de costas e alguém abre uma janela e despeja em cima de ti qualquer coisa, serão dejectos, mas dejectos de ti. Levantas-te e caminhas de novo, perdes-te mais à frente, um cão enamora-se de ti, lambe-te o rosto, tu tentas abraçá-lo mas ele escapa-se, ao contrário de ti não está habituado a afagos nocturnos, é arisco como a chama do fósforo que tentas acender, mas os cigarros estão desfeitos e molhados, e o cão que ainda agora te lambuzava o focinho troca-te por um caixote de lixo onde brilham os restos de comida, ternura que tu não lhe podes dar, e ficas a vê-lo, a olhar para a sua fugidia felicidade, sem compreenderes.

Talvez alguém olhe para ti e consiga ver que por baixo dos farrapos em que te tornaste esta noite, há mais farrapos. Talvez alguém perceba que tu és um animal em sofrimento. Talvez alguém te estenda a mão, te queira levantar, tente segurar o teu peso morto, te arraste pela rua até te depositar no saguão de uma porta na praça em frente à igreja, e tu, tão bêbado de ausência que já nem sentes o coração, te deixes aí ficar a dormir, enrolado numa manta que alguém atirou duma janela, na noite mais fria do ano.

Podia ser já Primavera.

Tu entras em casa e ela está vazia. Inusitada e surpreendentemente vazia. Não há uma carta sobre a cómoda, não há um bilhete, não há uma mensagem manuscrita no espelho. Há o armário da casa de banho aberto, frascos e pentes e escovas espalhados pelo lavatório. Um frasco de medicamentos aberto e minúsculos comprimidos brancos perdidos pelo lavatório e pela superfície negra e brilhante do chão ladrilhado. Uma garrafa de perfume estilhaçada, o cheiro agoniante da água de colónia misturado com o odor de uma garrafa de gin entornada. A cortina de plástico solta das argolas e atravessada por um rasgão largo. A água da banheira tingida de vermelho. Um forte cheiro adocicado a carne.

Podia ser já Primavera. A cidade estaria fechada, entregue aos turistas espanhóis que a invadem na Páscoa. O sol estaria quente e tu estarias na esplanada da Praça da República a beber um fino e a fazer horas para o jantar, distraído com o suplemento de algum semanário. Ele sentar-se-ia na mesa vizinha da tua e pedir-te-ia lume, comentando o calor ou a ausência dos indígenas. ‘Aparentemente, somos os únicos portugueses que restam’. Tu sorririas. Ele continuaria ‘Fica por saber se isso é uma sorte ou uma maldição’. Tu não resistirias: ‘O quê, exactamente: termos restado nós os dois?’. Seria a vez dele de soltar uma gargalhada e estender-te a mão: ‘Sou o António. Já agora, sento-me na sua mesa e concentramos o espaço vital da ocupação lusitana?’ Tu estenderias a mão e de imediato sentirias um calor macio que se aninharia no teu peito.
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