January 31st, 2004

rosas

se eu fosse peixe

Ao virar as páginas do jornal, a notícia da morte do realizador José Álvaro Morais. JAM fez muito poucos filmes, e eu só vi um, mas foi um filme que me marcou imenso: Peixe Lua. Um filme com personagens verdadeiras (e não os habituais fantasmas que normalmente habitam os filmes portugueses), que utiliza uma linguagem muito poética mas ao mesmo tempo desenvolve uma trama narrativa, com uma relação notável com os cenários naturais, verdadeiras paisagens de fuga, por onde os personagens sempre tentam fugir sem nunca o conseguirem.
rosas

21 grams

Confesso que estava à espera de mais, desta primeira experiência americana de Alejandro González Iñarritu. Tinha ficado impressionado com o anterior filme do mexivano, o 'Amores Perros'. Não é que 21 Grams seja um mau filme, longe disso, é até um melodrama disfarçado de thriller que chega a ter momentos empolgantes. Mas definitivamente não prova que Iñarritu seja um realizador diferente, com qualquer coisa de diferente, ou 'a mais', para nos dar. E o que é pior é que este filme até se apresenta com pretensões a ser um filme profundo, com mensagem. Mas é uma coisa muito maneirista, com muitos tiques, com muito 'fazer de conta'. E depois já começa a fartar um pouco esta coisa das narrativas não lineares. Quer dizer, faz sentido quendo essa não linearidade serve a história, mas neste filme a história é perfeitamente 'straight forward' e, acho eu, o filme se calhar até ficava a ganhar se nos apresentasse a história como ela se desenvolve cronologicamente, em vez de se enrodilhar de uma maneira que a torna, pelo menos no princípio, um pouco incompreensível. Por seu lado, esta confusão dos tempos da narrativa e a montagem muito sincopada, rouba muito espaço às personagens, que não têm oportunidade de se desenvolverem e de se construirem do ponto de vista da sua psicologia, o que, tendo em atenção o tema do filme, é desastroso. A personagem de Sean Penn, então, nunca 'descola', de forma a que nunca chagamos bem a acreditar nela, nas suas motivações. Resulta muito melhor a personagem do Benicio Del Toro, o que se poderá dever à menor complexidade das motivações da personagem, mas também, de algum modo, ao registo um puco 'flat' que o actor utiliza. Destaque para a Naomi Watts que, de alguma forma, compõe a personagem mais verosímil do filme, apesar de ser da sua personagem uma das maiores fraquezas do filme: o facto desencadeante da vingança está muito forçado, metido ali à bruta, nada no desenvolvimento narrativo da personagem, e da acção, justifica muito bem aquele ataque de sede de vingança.
Gostei da música e da fotografia, que, por vezes, tinha uma qualidade quase pistórica que lhe dava muita densidade.