January 27th, 2004

rosas

(no subject)

Depois do choque, a repulsa. Francamente, não consigo perceber o que passa nas mentes deste pessoal para estarem quatro canais de televisão a transmitir em directo imagens de um cortejo fúnebre, de uma urna, e das pessoas a chorarem a morte de alguém de quem gostavam muito. Não percebo!
Ok, as televisões perderam toda e qualquer noção de pudor, bom-gosto e bom senso. Mas devia haver lá alguém no Benfica que devia ter dito às televisões para fazerem o favor de sair da sala. É que não passa pela cabeça de ninguém. Alguém gostava de estar no funeral de um familiar ou de um amigo, enfim, de alguém de quem se gosta muito, e ter as televisões a filmarem?! A dor é uma coisa intima, pessoal.
E para quê, com que finalidade, qual o interesse? Hoje as pessoas parece que perderam de todo a noção. Tudo pode ser televisionado, não há intimidade. ‘A dor da gente não sai nos jornais’, cantava o Chico Buarque numa canção antiga. Hoje já não é assim: os jornais são feitos da dor da gente, vivem disso, vampirizam-na. E não é, claro está, uma questão de culpar as televisões de tudo, nada disso, o lema das televisões é ‘give the people what they want’, o problema é nosso, que vivemos desta antropofagia mediática. Não é um espectáculo ver pessoas comovidas com a morte de alguém que amam.
Eu percebo, e acho comovente, este clima de profunda consternação. Primeiro porque as pessoas ficaram chocadas, e expressar o choque é terapêutico, é uma forma de conseguir lidar com ele. Depois, porque é nestes momentos de choque que nós verdadeiramente nos revelamos, somos capazes de nos ultrapassar. Tinha que ser assim uma coisa mito profunda para ver os badamecos todos dos dirigentes do futebol, que sabem que só estimulando o ódio preservam o seu poder, obrigados, pela comoção e pela conveniência, a esquecerem as suas rivalidades de ‘alecrim e manjerona’. Acho comovente que as pessoas sintam a necessidade de ir ao estádio mostrar a sua consternação. Acho comovente pôr-se um cachecol de um clube rival a simbolizar que sabemos distinguir o que é importante do que não tem interesse nenhum.
O que eu não percebo de todo é porque é que isso tem de se transformar num evento televisivo, como o big brother ou a operação triunfo!
Como é que ninguém vê que esta rapinagem é uma profundíssima falta de respeito para com aquele que todos dizem homenagear?
Atenção, as televisões, como referi, só nos dão aquilo que nós queremos que elas nos dêem. Enquanto espectadores, claro, mas também enquanto protagonistas. Resta sempre às pessoas, aos cidadãos, às organizações, estabelecerem elas próprias o que é de interesse para o público e o que deve ficar na esfera do privado e do intimo. Eu até admito que ontem à noite as televisões tivessem de dar notícia do que se estava a passar, mas entrevistavam um dirigente do clube, o presidente da câmara, recolhiam alguns testemunhos de amigos ou colegas do jogador, mas vinham cá para fora, não estavam ali empoleiradas nas cadeiras a mostrar o caixão. E sobretudo resistiam à tentação demoníaca do directo, de apanhar em directo a dor, a angústia, o transtorno. Achei horrível aquela imagem dos jogadores abraçados a chorar. Horrível porque pensei que se estivesse no lugar deles queria estar abraçado aos amigos a chorar à vontade sem ter uma puta duma câmara a apontar-me para os olhos. Eu não tenho o direito de estar a ver aquilo, não sou para ali chamado.
Eu tenho, sim, o direito de querer que o meu desgosto seja só meu, de partilhar as minhas fragilidades apenas com quem quero, e não com o estupor da audiência televisiva. Como é que há gente que não percebe isto?
rosas

tramontate, stelle

Não quero parecer frívolo ou cínico, mas ontem, enquanto os outros canais passavam as 'cenas de um velório', na rtp2 havia mais um episódio de Six Feet Under. Não digo que tenha sido dos melhores episódios, ou dos mais absurdos, mas foi, para mim, um dos mais bonitos. Esta terceira série da SFU está 'gayer than ever'. Quer dizer: muito alegre...

Ma il mio mistero
è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!