January 19th, 2004

rosas

les égarés + the last samurai

Dois filmes no fim de semana:

Les Égarès, Os Fugitivos, de André Techiné, põe em cena um cenário da II Grande Guerra, durante a invasão alemã da França, quando os parisienses fugiram em massa para o sul. Mas este cenário de guerra serve apenas de fundo para um tema que é caro a Techiné, o da relação entre o desejo e a conveniência. Emmanuelle Beart compõe uma jovem mãe viúva que, durante o êxodo, encontra um jovem aventureiro que a ajuda a escapar a um ataque de stukas e com quem vai partilhar o refúgio bucólico de uma villa no campo. Téchiné filme então, com um olhar simultaneamente suave e tenso, e com uma inegável pulsão erótica, o desenrolar dos fios de relações que se vão estabelecendo entre o núcleo protagonista, e os sucessivos momentos de atracção e repulsa que se estabelecem entre eles.

The Last Samurai é, em primeira linha, um épico de aventuras. E nunca devemos ceder muito à tentação de ver nos filmes de aventuras muito mais do que o que lá está. No entanto, há linhas narrativas neste filme de Edward Zwick que vale a pena explorar e que o tornam num objecto com algum interesse. Zwick já havia filmado a guerra (e, precisamente, a guerra da Secessão, que está na origem da história deste Samurai) na perspectiva de ser a guerra o palco onde a honra e a glória por definição estão em jogo. Não deixa de ser interessante que torne a pegar no tema num momento em que os EUA se encontram envolvidos de forma muito contestada num conflito, e que o faça propondo um certo regresso aos valores tradicionais do guerreiro por oposição à warfare moderna e tecnológica.
Outra questão interessante que o filme desperta, tem a ver com a capacidade de resistência que estes fundos históricos dão ao cinema de aventuras made in hollywood. Foi das coisas que mais me questionei quando estava a ver o filme, até que ponto é que aquele contexto histórico tinha apoio na realidade. E se é verdade que haverá uns ténues traços de similitude com a realidade, nomeadamente na figura do último samurai dissidente na construção do Japão moderno, também é verdade, tanto quanto conheço, que o filme faz uma interpretação um pouco distorcida desse conflito entre o tradicional e a modernidade: é que o Japão terá sido das poucas (estou-me a lembrar da Irlanda como sendo outro bom exemplo) culturas que ao modernizarem-se, em vez de abandonarem os seus símbolos mais tradicionais, passaram a prestarem-lhes um culto do domínio do mitológico, erigindo-os em símbolos dos valores fundadores da cultura.