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a força que tem um verso
rosas
innersmile
Fazem hoje vinte anos que morreu o José Carlos Ary dos Santos. A verdade é que em Janeiro de 1984, eu andava demasiado preocupado com a minha própria vida para me impressionar com a morte dos outros, e por isso foi uma morte que eu verdadeiramente nunca senti, de que nunca fiz o luto. É interessante que quando temos uma doença grave, e a morte é uma das perspectivas que carrega o nosso horizonte, a morte dos outros é sempre de somenos importância, sempre relativizada, ou porque queremos afastar, por puro medo, o espectro da morte da nossa frente, ou porque na morte dos outros reconhecemos um fracasso que nos recusamos a aceitar.

E, no entanto, devo ao Ary dos Santos duas coisas fundamentais. A primeira é a poesia. Tive a sorte de conviver com a poesia desde muito cedo, e uma das formas que esse convívio revestiu (para além dos livros) foram os discos com poesia dita. Ouvir poesia é sempre uma coisa fabulosa, uma aprendizagem extraordinária, porque nos apercebemos melhor da música que há no poema, nas palavras. O gosto da poesia tem sempre uma componente lúdica, de puro gozo, de diversão, e que tem a ver com a música, com os sons. Aí por inícios da década de setenta, apareceu em casa dos meus pais um LP duplo que viria a ser apreendido pela censura e que era a gravação de um serão em casa de Amália, em que participaram a Amália, o Vinícius de Moraes, o Ary, a Natália Correia e o David Mourão-Ferreira. Nesse disco o Ary dizia creio que dois poemas, e um deles era o objecto, que eu achava tão divertido, tão cómico que não tive de fazer grande esforço para o decorar. Só para acrescentar que esse disco constitui uma das minhas mais antigas memórias de "actividade" de oposição à ditadura fascista (juntamente, no campo da música, com o Cancioneiro do Niassa, que eu ouvia cantado ao vivo pelos militares em comissão que ficavam lá em asa, e com os discos do José Afonso).

A outra coisa que eu, já adolescente, devo ao Ary foi o facto de ele ser uma das raríssimas figuras públicas que na altura, finais de setenta, princípios de oitenta, era publica e claramente reconhecida como homossexual. Uma das coisas mais complicadas na época para quem era adolescente e gay, era a total ausência , eu já nem digo de modelos, mas ao menos de pessoas que fossem identificadas como tal. Lembro-me que em Coimbra havia dois ou três tipos de quem se dizia que eram homossexuais, e que engatavam rapazinhos, mas figuras públicas, nem uma. Só aqueles tipos mais extravagantes, muito abichanados, tipo o Liberace. Por isso pessoas como o Ary e o Guilherme de Melo foram importantes: eram a única garantia que um puto tinha de que havia pessoas normais, respeitáveis, que também eram homossexuais. Eram, enfim, o único reduto de visibilidade, que podiam dar sinal a um adolescente de que ele não estava sozinho no mundo, de que havia outros como ele.

A melhor forma de homenagear o Ary, neste aniversário da sua morte, é recordá-lo através da poesia. É uma obra vasta, de qualidade desigual, sobretudo porque o Ary, como se sabe, nunca receou comprometer a sua poesia com o activismo político, e é também uma obra que, em muito do seu melhor, se plasmou em inesquecíveis textos para canções. Mas como quando me lembro do Ary o que me vem imediatamente à ideia é esse poema inicial do meu gosto poético, não pode ficar aqui senão O OBJECTO (e parece que o ouço, antes de começar a dizer, dirigindo-se aos guitarristas que participaram no disco: "podia ter um picadinho").

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa de um cão.
Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda
e o literato for de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão
Assim se chamam as coisas
pelo nome que elas são.



[A iniciativa desta entrada dedicada ao Ary nasceu de uma proposta do blog Conversas Coloridas para se assinalar condignamente o aniversário da morte do poeta.]
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