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silêncio
rosas
innersmile
A propósito de um post na Janela Indiscreta sobre a peça 4'33'' de John Cage, que fazia referência a um artigo na edição de ontem do Público (está o link no post da Janela), e dos comentários que esse post mereceu, alinhavei algumas ideias.
Só para ficar aqui com o registo disso, transcrevo para aqui o que escrevi lá.

O Cage compôs, e compôs muito, e é no âmbito do conjunto da sua obra que pode ser analisada esta peça dos 4'33''. Não nos podemos esquecer, por outro lado, que o Cage fez parte de uma vanguarda que, no nosso tempo, questionou muitas coisas, muitos cânones, e que esse questionamento sempre revestiu um lado de provocação.

No entanto, eu penso que o verdadeiro alcance e provavelmente o melhor sentido que faz uma obra como 4'33'' é, precisamente, suscitar perguntas e reflexões e dúvidas e perplexidades como as expressas nos comentários anteriores. Não é isso a arte? Julgo que o Cage ficaria satisfeito se lesse os comentários ao post da Janela e acharia que tinha cumprido o seu objectivo.

A peça é para ser apresentada ao vivo; na lógica de que não há silêncio, a ideia é escutar o som que fica quando ouvimos aquilo que julgamos ser o silêncio. E só ao vivo conseguimos ouvir a respiração dos intérpretes imóveis, as tosses do público, as cadeiras a ranger, o avião a passar por cima da Gulbenkian (ou whatever), o metro a entrar na estação, o satélite a orbitar lá por cima das nossas cabeças.
Neste sentido o Cage não compôs o silêncio, fez antes uma elegia ao som. Claro que seria fácil partir daqui para especular sobre todo um universo de simbologias, mas presumo que o Cage se riria da maior parte delas.

Parte do gozo é que também fiz estas perguntas quando estava a ler o artigo, tentei imaginar o auditório todo calado, o maestro com ar concentrado a olhar fixamente para a pauta, formulei mutas vezes a pergunta "como será?"

O João César Monteiro fez uma coisa parecida, aparentada digamos, com a Branca de Neve, e foi possivelmente dos filmes ou dos objectos artísticos mais polémicos e discutidos em Portugal. E, paradoxalmente, daquelas polémicas em que participaram mais pessoas. Ou seja, para além de tudo foi um filme muito democrático... Mas páro: já estou a ironizar e a descambar.
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zatoichi
rosas
innersmile
Zatoichi é um filme aparentemente desconcertante. E isto num realizador que, apesar de a sua imagem autoral estar geralmente associada aos filmes brutais de yakuzas, tem já na sua carreira uma dose razoável de surpresas. Ou seja, não é pelo ineditismo que este mais recente filme de Kitano surpreenderá muita gente. Desta vez, Kitano virou-se para uma história tradicional do século XIX japonês e fez um filme de samurais. Um filme de samurais que, tal como outros filmes de Kitano, não hesita em recorrer ao burlesco para fazer um contraponto à extrema violência que, tal como nos demais, é também uma imagem de marca deste filme. Finalmente um filme que leva mais longe (demasiado, acharão alguns) o sempre incensado aspecto coreográfico dos filmes de Kitano; aqui, a marcar os andamentos do filme, temos uma série de apontamentos musicais em que a cena se organiza como numa coreografia (sim, um pouco à maneira de ‘Dancer in the Dark’), para tudo culminar num apoteótico e já famoso sapateado final.
De resto, o filme retém todas as marcas autorais do cinema de Kitano: o rigor na composição do plano, um intenso cromatismo, a estilização da violência (notáveis os jactos digitalizados de sangue a transformarem o écran numa espécie de tela gigantesca e animada), a falta de textura psicológica das personagens (que são sempre ou de uma psicologia muito primária ou totalmente densa e imperscrutável) como recurso para o total centramento na acção, o uso narrativo da elipse, a utilização, como em ‘Dolls’, de filtros para distinguir os planos narrativos, a utilização dos já famosos apontamentos ‘kitanianos’ como a cena à beira mar.
Por isso, dir-se-ia que, com Zatoichi, Kitano é um realizador numa encruzilhada: por um lado, precisa de novos temas, de novos universos narrativos – a vida não pode ser um longo filme de yakuzas; mas, por outro, não consegue abandonar um determinado dispositivo – chamemos-lhe, para simplificar, o ‘sistema Kitano’ – talvez com receio de que não haja cinema para lá desse dispositivo.
O que é louvável é que Kitano assume o impasse (não sabemos ainda se o resolverá, e como) da maneira, aí sim, mais desconcertante e arriscada. Em vez de se refugiar num tipo de história mais seguro, quer para si quer para os seus espectadores, Kitano vai buscar à tradição cinematográfica do seu país, à sua história de entertainer, e aos seus fascínios cinéfilos, uma mistura de elementos, uma espécie de ‘free-for-all’, que nunca recua perante excesso, mesmo quando o tom é de contenção. Encontrando-se Zatoichi, por isso, num cruzamento entre uma evidente vontade de transgressão e um certo conservadorismo, é assinalável que não se deixa paralisar por isso, e constitui-se, se não numa fuga para a frente, pelo menos num salto para o ar.
Claro que eu poderia agora dizer que se aguarda com crescente antecipação o próximo filme de Kitano para ver se ele consegue resolver o impasse e o modo como o fará. Mas é treta: a antecipação é mesmo porque continua intacto o prazer de ver o cinema de Takeshi Kitano.
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