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In America + Bully
rosas
innersmile
Ida ao Porto para me despedir da M., que se vai embora na segunda. Claro, tratando-se da M., a despedida envolveu irmos ver dois filmes, e, por sorte, ambos muito interessantes.

O primeiro foi In America, do Jim Sheridan, um projecto muito pessoal, em que o realizador, mantendo, pelo menos a nível formal, o seu estilo realista, envereda por uma verdadeira parábola familiar com tons efabulatórios. Não é um filme isento de defeitos e facilidades, descai muitas vezes (haverá quem considere demasiadas vezes) num tom de lamechice total, o argumento parece estar saturado de inverosimilhanças, mas apesar de isso tudo, é um filme que nos aquece o coração e nos transborda de ternura. Ariel é uma personagem irresistível, e a corrente de ternura que se estabelece entre Ariel e Mateo dava para iluminar o mundo.
Por outro lado, raras vezes se viu Manhattan filmada daquela maneira (a M. diz que desde Taxi Driver que as luzes de Manhattan não eram tão fascinantes), e o filme também a esse nível funciona como uma parábola: numa cidade devastada por problemas e dificuldades, há lugar para o amor e, por isso, há lugar para o futuro.
In America é um filme muito especial.

O outro filme não podia ser mais diferente: Bully, do Larry Clark, o filme que o LC fez antes de Ken Park. Um filme, como se esperaria, muito perturbador, que, de certa forma, enuncia o Ken Park, mas também o Elephant.
O problema é que eu não consigo afastar a ideia de que os filmes do LC têm uma carga voyeurista que, por ser não assumida, perturba a própria ideia do filme. Se o filme se assumisse nessa vertigem do olhar, não viria mal ao mundo, o problema é que o LC precisa de dar uma certa caução social, e psicológica, ao seu cinema, e
é esse atravessamento entre um cinema que se quer de ideário e um programa todo ele feito de obsessões e compulsões, que transforma o acto de ver os seus filmes num processo um pouco desconfortável.
Naturalmente, é nessa parcela compulsiva que reside o interesse dos filmes do LC, ou, pelo menos, é aí que o seu olhar é mais transgressor. E isso é tão evidente na forma como a câmara de LC olha os seus actores, neste caso concreto o corpo de Brad Renfro, sempre à procura dos sinais que num corpo anunciam a sua própria morte e, por isso, o pulsar de vida que em cada momento o anima.
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