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evasão fiscal
rosas
innersmile
Um destes dias tive de ir à 1ª Repartição de Finanças, comprar o selo do carro. Ou antes, comprar o selo de isenção do selo automóvel. Com efeito, a lei concede, a quem compra carro no último trimestre do ano, isenção do selo até à data de aquisição do selo do ano seguinte. Em rigor, aquilo que o cidadão faz é requerer ao chefe de finanças da repartição que lhe seja concedida a referida isenção.
E os serviços levam este rigor a sério: o cidadão lá espera na bicha (eu esperei 50 minutos até ser atendido), apresenta a declaração de venda do automóvel, a funcionária levanta-se, tira uma fotocópia da declaração e outra do modelo do requerimento, torna a trazer, o cidadão preenche os espaços em branco do requerimento a solicitar a isenção do selo, a funcionária confere, carimba a informação e assina, torna a levantar-se e leva o requerimento ao chefe de finanças, que assina a conceder a isenção, a funcionária vai por o selo branco, agrafa o requerimento à fotocópia da declaração, devolve o original da declaração e do requerimento devidamente autorizado ao cidadão. Que se levanta, diz boa tarde, sai do edifício e torna a entrar por uma porta lateral para ir à tesouraria. Na tesouraria o cidadão é atendido por um funcionário carrancudo que passa o tempo todo com um telefone encostado ao ouvido (e para onde não falou uma única vez), que vende um impresso do selo por 12 cêntimos, o qual o cidadão preenche e torna a devolver juntamente com o requerimento. Finalmente o funcionário da tesouraria vende ao cidadão o selo de isenção do selo automóvel, que custa 30 cêntimos.
Ou seja, o cidadão acabou de gastar uma hora e trinta minutos de vida para comprar um selo de 30 cêntimos.
Ainda me lembrei de comprar o próprio selo automóvel, por 40 ou 50 euros, mas como o circuito deveria ser o mesmo, não se ganhava nada com isso. Disse à funcionária que me atendeu na repartição que esperar uma hora (eu ainda não sabia que ainda me faltavam mais 30 minutos) para comprar um selo que custa 30 cêntimos era um forte incentivo à evasão fiscal, mas ela ou não percebeu a piada ou então eles fazem formação para nunca demonstrarem a mínima alteração facial quando lhes aparecem à frente cidadãos armados em palermas imbecis que têm a mania de dizer graçolas sarcásticas.

A única coisa que me consolou é que parte deste processo foi partilhado. Estava eu há um bocado na fila, quando apareceu o distribuidor de pizzas, de quem já falei aqui no innersmile. Conversámos (claro que foi ele que, 10 segundos depois de ter chegado à fila, meteu conversa), ele contou-me uns pormenores da vida dele (nomeadamente que não percebia nada daquilo, que não se entendia com repartições públicas e com papéis), tratámos dos papeis juntos (quer dizer, eu, para poupar tempo, preenchi o meu e o dele; esta parte foi interessante: a funcionária que nos atendeu estava espantada com o facto de duas pessoas terem ficado amigas - velhos amigos, mesmo - enquanto esperaram para serem atendidas...), ele sempre um bocado mais atarantado do que eu, e eu bastante mais atormentado do que ele. E nem me posso queixar: o distribuidor de pizzas estava a tratar do assunto de uma colega, e, no fim deste processo todo (t-o-d-o!), o funcionário da tesouraria comunicou com um ar frio, mal-educado e peremptório que como a sede fiscal da dona do carro era em Tomar, a isenção tinha de ser pedida em Tomar. Palavra, o tipo esteve na repartição de finanças quase tanto tempo quanto eu! Não sei como é que ele resistiu a não escaqueirar aquela merda toda com o capacete! Quer dizer, não sei se não escaqueirou, porque eu vim-me embora e ele voltou para a repartição para falar com o chefe de finanças porque tinha metido 20 cêntimos na máquina das bebidas para pedir um chocolate quente e só lhe saiu água quente.