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a dois
rosas
innersmile
Ontem, por volta das dez da noite, recebi duas mensagens no telemóvel (uma delas não consegui identificar o número - alguém daqui?) a avisar de que estava a começar o Six Feet Under. Eu estava convencido de que era repetição, mas, afinal, episódios novinhos em folha! Que alegria. E a avaliar pelo episódio de ontem, mantém-se incólume a estranheza, a preversidade, a profunda "maluqueira" daquela gente aparentemente normal. Como nós.

Logo a seguir, na primeira noite do novo canal 2 da rtp (acho tão presunçosa esta coisa de lhe chamar 'dois' e de fazer de conta que aquilo é novo!), a Ana Sousa Dias do Por Outro Lado entrevistou a escritora Helena Jobim, que é irmã, e biógrafa, de António Carlos Jobim.
Há uma coisa que eu acho admirável nos brasileiros, que é total ausência de presunção intelectualóide. Caramba!, ela é irmã de um tipo que foi um dos melhores compositores do século XX no mundo inteiro (e quando digo dos melhores, estou a dizer assim dos vinte melhores, ou dos dez melhores, ou dos cinco melhores) e não há ali a mais leve ponta de vaidade. Ou melhor, pode haver vaidade, não há é soberba, não há aquela pose de que se é um eleito dos deuses. Não há mediocridade, pequenez. Ouvir a Helena Jobim a falar do Tom, de Chico Buarque, de Vinícius, assim com uma simplicidade. Ela dizer que o Tom era muito 'chopeiro', daquela forma simples e carinhosa com que um irmão fala de um irmão. Foi lindo.
Eu quando li O Homem Iluminado (em edição brasileira, com um cd doméstico), escrevi um texto a que chamei 'Carta a Helena'. Mandei esse texto para um site qualquer (não me lembro se o site oficial do Tom) e alguém me respondeu que ia fazer chegar o texto a Helena. Claro que não sei se isso chegou a acontecer. Engraçado, lembrei-me disto agora, e não ontem, a ver a entrevista. Vou ver se encontro o texto e, se encontrar, ponho-o aqui no innersmile.

carta a Helena Jobim
rosas
innersmile
Cara Helena

(desculpe se a trato assim, sem aquele excesso de formalismo próprio dos portugueses).
A cidade de Coimbra, em Agosto, está deliciosamente vazia. Ao fim-de-semana, então, está fascinantemente deserta. Numa destas últimas tardes de Sábado, descobri, surpreendido, um verdadeiro oásis: uma livraria aberta. Normalmente, as minhas incursões em livrarias arrastam-se no tempo até ao momento em que os empregados me começam a deitar olhares suspeitos, por me verem correr as infinitas estantes, desfolhando livros que torno a colocar no sítio. Horas depois, a sua vigilância compensa-se: dou uma volta pelas prateleiras onde já tinha estado, recolhendo os exemplares que vou levar. Mas, nessa particular tarde, quebrei a minha rotina: numa anónima estante, entre livros mais ou menos indiferentes, o nome António Carlos Jobim prendeu-me a atenção. O livro chamava-se António Carlos Jobim - Um Homem Iluminado e, descobri a seguir, sua autora era Helena Jobim, você Helena. Peguei imediatamente no livro e não o larguei mais, com um medo, porventura injustificado, que um outro cliente errante pudesse entrar na loja e encontrar a jóia.
Francamente, não me lembro da primeira vez que ouvi uma canção de António Carlos Jobim. Curioso. Consigo recordar-me (não a data, claro, mas a circunstância) da primeira vez que ouvi os Beatles. Lembro-me perfeitamente de quando descobri Cole Porter e George Gershwin. Lembro-me muito bem de que, a primeira vez que escutei Frank Sinatra, ele estava cantando Strangers in the Night. Lembro-me de ouvir, em casa dos meus pais, Amália Rodrigues e José Afonso.
Mas, coisa estranha e curiosa, não me lembro de nenhuma altura da minha vida em que não conhecesse Garota de Ipanema. Não consigo recordar-me em que altura aprendi a diferenciar Corcovado e Desafinado (ainda hoje essas duas canções estão inexplicavelmente ligadas no meu espírito - quando ouço uma delas tenho de parar um momento para decidir qual delas estou a escutar). Tenho apenas uma certeza: para mim, António Jobim e Vinícius de Moraes são como o enigma do ovo e da galinha - não consigo descobrir qual me apareceu primeiro, qual deles trouxe o outro, sequer se vieram ao mesmo tempo.
A música de António Carlos Jobim sempre representou para mim a existência de um mundo perfeito. Cada canção, cantada não interessa por quem, era assim uma espécie de carta, ou bilhete postal, que me chegava do paraíso. Um mundo subtil, delicado e sensível, feito de pequenas coisas e gestos suaves. Um mundo cuja representação, a maior parte da vezes, não passa do sussurro com que entoamos, ao longo de um dia, uma melodia que não nos sai da cabeça. Confesso que, até um destes últimos sábados, o que eu conhecia desse mundo perfeito não passava, como já disse, de uma série de bilhetes postais (como quando um amigo vai fazer uma viagem a um país onde sempre sonhámos ir e, no seu regresso, nos mostra as fotografias que fez).
O seu livro, Helena, ajudou-me a descortinar um pouco mais desse mundo. Não a compreendê-lo, pois não é possível compreender o voo dos pássaros, o murmúrio das ondas a morrer na praia, ou a frescura do vento no rosto. O que o seu livro consegue é precisamente mostrar que o que habita as músicas de António Carlos Jobim, é o voo, é a água, é a brisa.
Ao invés de nos tentar explicar o mundo de António Carlos Jobim (e todas as tentativas de o fazer, por muito boas ou bem intencionadas, não deixam sempre de soar um pouco ridículas, estreitas ou inúteis), você decidiu abrir-nos uma janela para esse mundo. Mostrar como funciona essa mistura de ternura, angústia e sensibilidade, que faz as canções transbordar de beleza. Mostrar porque é que, quando ouvimos uma canção de Jobim, nos sentimos invadir por uma tristeza doce e meiga, própria de quem, estando em paz com o mundo, tem sempre os olhos e o coração postos num mundo melhor.
Entre o piano livre e fugaz que se ouve em The Composer of Desafinado Plays e o terno aconchego do Samba de Maria Luisa, está o seu livro, Helena. Bem haja por ter compartilhado connosco essa ferida linda que arde em seu coração.

[Agosto de 1997]
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