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a glória do mundo
rosas
innersmile
Uma tarde dedicada a exposições, na baixa de Coimbra: no CAV a instalação de Longer Journeys, de Pedro Cabrita Reis, que aterra no pátio branco e luminoso do Colégio das Artes como uma nave de histórias. É um convite à interdependência entre as portas, as paredes, as superfícies metalizadas da peça, e as portas, as janelas e as superfícies brancas do pátio. De passagem, vi ainda Álbum de Férias, as recordações do Verão num cubo de frescura e leveza.
Atravessa-se a rua e entra-se no Antigo Refeitório de Santa Cruz, para ver as Memórias de Santa Cruz, cadinho, julgo eu, do futuro museu de arte sacra de Coimbra. Um tesouro.

E é então que o milagre acontece. Entra-se na sala obscurecida e de imediato os olhos nos levam a um expositor, à direita, onde brilha um ‘Relicário Braço de Santo Agostinho’, peça em prata lavrada, vidro e pedraria, do século XVI. Não consigo descrever a peça, falta-me o vocabulário técnico e, como na Odisseia, palavras apetrechadas de asas que traduzam com rigor o seu fulgor esplendoroso. Mas sempre adianto que há uma base, toda trabalhada, da qual se ergue um braço adornado com incrustações em vidro e pedraria, encimado por uma mão de dedos estendidos e entreabertos. E então, tocando os dedos, mas não sendo segurado por eles, um coração em prata dourada (?), atravessado por uma seta. O elemento, como digo, apenas é tocado pela extremidade dos dedos, como se fosse uma palpitação de glória que pairasse no ar, e que transforma todo o conjunto. Este coração é o centro (da peça? da sala? do mundo?) e o braço e a mão, que pareciam há pouco ser o elemento preponderante do conjunto, são relegados para o secundário papel de uma súplica, um braço que se iça e uma mão que se estende para tocar o inacessível, para tocar um segredo qualquer que dá força, e movimento, e glória, ao mundo.