January 3rd, 2004

rosas

os livros em 2003 - parte 1

O ano dos livros foi dominado, desde logo, e no seguimento da ida a Moçambique, pela descoberta e pelo fulgor da literatura, em especial da poesia, moçambicana. Há muitas maneiras de nos relacionarmos com a vida, com o mundo, com os outros. E escolhermos relacionarmo-nos através dos livros, não é uma maneira de mediar a realidade, é antes uma maneira de guardar essa realidade, as impressões, as fantasias, as imagens mais fortes, os sentimentos e as emoções mais arrebatadoras. É uma maneira, em suma, de guardarmos o que vivemos com as palavras que somos incapazes de pronunciar e que roubamos aos poetas. Sim, porque a poesia é sempre uma maneira de nos apropriarmos das palavras dos outros para dizermos aquilo que precisamos de expressar.

Entramos num restaurante amplo e simples, com uma varanda traseira que se estende em quintais até ao mar. Sentamo-nos à sombra de um ‘parrô’ de palha e abrimos um livro que pegámos no percurso através da sala até à varanda. E percebemos que esse livro, o que faz, é traduzir-nos as imagens que estamos a ver naquele momento, as emoções que estamos a sentir e a viver. O livro é ‘A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas’, uma colectânea de poemas (e outros textos, alguns deles históricos) reunidos por Nelson Saúte, dedicados à Ilha e editados pelas Edições 70.

O tempo e o acaso são o único livro da vida, o manual de instruções. Em Abril saiu A Poesia Completa de Rui Knopfli (na INCM) e eu, que já andava em processo de releitura da sua poesia, mergulhei na poesia de RK com uma ferocidade de auto-descoberta. Acho que tudo o que fui este ano, tudo o que fui capaz de escrever, eventualmente tudo o que vai ser daqui para a frente, passa pelos versos de Knopfli. Que se junta a Reinaldo Ferreira, e passam a ser os dois os meus poetas.

A saída quase no final do ano de Albas, de Sebastião Alba (na Quasi) levou-me à releitura de este outro poeta. Não se consegue ficar indiferente à poesia de Alba, como não se consegue ficar sossegado face à sua vida, às difíceis, e quase inexplicáveis, opções de vida que tomou. Mas, claro, os caminhos dos deuses parecem-nos sempre tortuosos apenas pela razão de que não os conseguimos compreender.

A vontade de fazer À Sombra dos Palmares, apenas por prazer e para dar substância, sob a forma de homenagem e gratidão, ao meu regresso à terra onde nasci, levou-me à descoberta de livros (e sites) sobre a literatura de Moçambique. Levou-me a conhecer melhor os nomes que me são familiares desde criança mas que nunca tinha verdadeiramente lido, nomes que sempre me acompanharam mas com quem estreitei e aprofundei a leitura, nomes novos que não conhecia de todo. Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Alberto Lacerda, Eugénio Lisboa, Ungulani Baka Khosa, e tantos outros. A redescoberta de ‘Nós Matámos O Cão Tinhoso’, um livro comovente, de uma transparência e lisura que nos torna melhores seres humanos, do Luis Bernardo Honwana, e que eu tinha lido quando fiz o segundo ano do Liceu, lá no longínquo Liceu de Nampula. O terceiro volume da colectânea de poesia ‘No Reino de Caliban’, organizada por Manuel Ferreira, e que é uma rara e riquíssima antologia da poesia moçambicana, coligida segundo um princípio de busca de uma identidade nacionalista e africana. Ainda no campo das antologias, ‘As Mãos dos Pretos’ (o título é ‘roubado’ a um conto soberbo do Luis Bernardo Honwana), uma colecção de contos organizada pelo Nelson Saúte, na Dom Quixote. Do mesmo antologiador, a mesma editora tem anunciado uma colecção de poemas, ‘Nunca Mais É Sábado’, aliás já prometida no blog Textos da Contracapa mas que tarda em aparecer nas livrarias.
Finalmente, dar ainda notícia de dois ensaios dedicados à poesia, ou a poetas, de Moçambique. ‘Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade’ (Vega) é uma colecção de entrevistas feitas a escritores moçambicanos, precedidas de ensaio, de Patrick Chabal. Fátima Monteiro fez publicar na INCM, ‘O País dos Outros – A Poesia de Rui Knopfli’, a versão ‘editável’ de uma tese dedicada em absoluto à poesia de RK.
rosas

os livros em 2003 - parte 2

Quanto aos restantes livros que marcaram o ano, comecemos pelo princípio. E o principio, em literatura, é a Odisseia, de Homero, a que a tradução de Frederico Lourenço (na Cotovia) devolveu o prazer da poesia.

Ainda na poesia, marcou o ano a descoberta da poesia de Daniel Faria (na Quasi, mas também na Fundação Manuel Leão). Há milagres em relação aos quais chegamos sempre com a sensação de que chegamos demasiado tarde. Esta poesia é um fulgor, um fogo que arde na noite, mas que não nos resgata de todo da sensação de perda que nos percorre: houve alguém que detinha a chave dos segredos, e que deixámos morrer; agora resta-nos a sua poesia, lida como uma espécie de arqueologia da revelação.

Outro livro que me acompanhou como um espelho: Fabrizio Lupo, de Carlo Coccioli (na Cotovia). É um livro fortíssimo, de certa forma um livro que já não se usa, datado, mas que se lê, que eu li, com a sensação de estar a ler a geografia da palma das minhas mãos.

Nunca li a poesia de Manuel António Pina, que só conheço avulsa e desgarrada, e que será uma das resoluções de ano novo (ao menos que tenham um sentido de utilidade, não é?). Mas li este ano ‘Os Papeis de K’ (Assírio & Alvim), e que é um divertimento, leve e profundo como os verdadeiros divertimentos, fantástico e sublime, a provar que a grande literatura não é necessariamente a que tem o programa mais ambicioso.

Mais um romance do Frederico Lourenço, À Beira do Mundo (Cotovia), a fechar a trilogia que começou com ‘Pode Um Desejo Imenso’ e prosseguiu com ‘O Curso das Estrelas’. Eu sei que nestas coisas não faz sentido ser muito categórico, mas apetece-me dizer que, por muitas e variadíssimas razões, estes três volumes do FL podem muito bem ser os livros de que eu mais gostei na vida!

Mais um Calvino, ‘As Cidades Invisíveis’ (Teorema). Ler o Calvino é um projecto de vida, um projecto para a vida. assim, para ir lendo de forma a nunca se apagar dentro de nós o efeito milagroso, divertido e fantástico (e terapêutico, já agora) da prosa de Calvino.

Ainda na Assírio, uma recolha (póstuma) de poemas de Fernando Assis Pacheco, ‘Respiração Assistida’. Acho inacreditável o pouco que se conhece e valoriza a poesia de Assis Pacheco. Um dia destes, vai ser descoberto como uma das mais fundamentais vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século passado. Tanto mais que é daquelas poéticas que estão sempre em sintonia com o tempo presente, mas simultaneamente contém o fôlego que as transportará para o futuro.

Já quase no fim do ano, um romance que é, ao mesmo tempo: 1 – o livro mais divertido do ano: 2 – um retrato cáustico e impiedoso deste Portugal que (ainda?) não sabe muito bem o que é ser uma nação ocidental e moderna; e 3 – uma lição de português, um exercício brilhante do domínio literário da língua. Trata-se de ‘Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina’ (Caminho), de Mário de Carvalho. Nas mãos de MdC, a língua portuguesa é uma língua vivíssima, ao mesmo tempo ancestral e moderna, rica ao ponto de parecer um tesouro barroco.

Os livros escritos em português que se dedicam, sem dissimulações, a temas de ressonância gay ou lésbica, começam a aparecer, tímida mas corajosamente. Começa a encher a estante, o número de livros nacionais que poderemos identificar como sendo lgbt. Ainda que, nalguns casos, os próprios autores reneguem essa classificação. Mas, se me parece justo não condicionar um livro ao rótulo, sempre limitador, de literatura gay, já me parece perfeitamente aceitável recomendar, ou mesmo anunciar, determinado livro como apelando particularmente ao interesse de leitores gays ou lésbicas. Para além do já referido livro de Frederico Lourenço, dois outros livros, ambos editados pela Dom Quixote, abordaram este ano a temática das relações entre pessoas do mesmo sexo, sem rebuço e com interesse: ‘Olhos de Cão’, de Daniel Skramesto, e ‘Os Sinais do Medo’, de Ana Zanatti. Claro que é justo dizer que esta presença ‘queer’ apenas é novidade na prosa, uma vez que a poesia escrita em Portugal sempre se deixou permear, de forma mais ou menos dissimulada, mas em todo o caso assinalável, pelo ‘amor que não ousa dizer o seu nome’. Disto também se dá conta num notável ensaio que a Angelus Novus publicou, de Eduardo Pitta, e com o acutilante título ‘Fractura – A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea’.

Para finalizar, um caso aparte. Um livro que se lê como uma fogueira, que nos arde nos olhos. Um livro para se ver, porque apenas com os olhos assim em chamas se podem ler as palavras que não estão lá escritas. Falo das fotos de Paulo Nozolino, que a Frenesi publicou com o título ‘Nuez’, com poemas de Rui Baião.