January 2nd, 2004

rosas

double standards

Já tinha falado aqui no innersmile da Lea DeLaria, pelo menos a propósito do seu anterior cd, Play It Cool, e do livro Lea's Book of Rules for The World.
A Lea é uma comediante de stand-up, lésbica, que basicamente baseia o seu humor e a sua atitude num papel de butch dyke. Do que eu conheço, os seus números de humor são muito cáusticos, à boa maneira nova-iorquina. Aliás o livro que tenho apresenta-a como uma espécie de cruzamento entre o Hoaward Stern e a Sandra Bernhardt, o que diz bem da truculência da personagem.
Por todas estas razões, o seu cd de estreia constituiu já uma surpresa: um jazz muito classy, feito de velhos e novos standards, todos eles retirados de peças musicais, e que iam de Stephen Sondheim a Tom Waits, passando por uma versão "surpreendentíssima" do All That Jazz, do Chicago.
Comprei há poucos dias o seu segundo cd, Double Standards, em que a Lea DeLaria, mais uma vez, vai procurar a terrenos fora do jazz a matéria prima das suas canções. E a escolha é realmente notável e, mais uma vez, surpreendente: Call Me, dos Blondie, Philadelphia, do Neil Young, Alliance, do Robert Wyatt, People Are Strange, dos Doors, Been Caught Stealing, dos Jane's Addiction, etc.
Não é fácil dizer se Lea DeLaria faz um disco pop que acena ao jazz, ou se, pelo contrário, faz um disco de jazz enraizado nos canônes do rock e do pop. Nem isso, para dizer a verdade, interessa muito. Para além da selecção e do bom gosto dos arranjos, o destaque vai para a voz madura da Lea, para o seu fraseado scatty, para o seu swing quente e aconchegante, para a alegria e honestidade da prestação. A ensinar à corte de cantoras de jazz suave e limpinho que de repente começou a despontar como erva na primavera, o que realmente distingue as meninas das mulheres, e porque é que, de facto, as meninas boas vão para o céu e as más vão a todo o lado.