December 28th, 2003

rosas

chamas

Eu estava sentado no lado oposto à entrada do restaurante, junto à grande vidraça que abre para o rio e para outra cidade. Vi-te mal assomaste ao cimo da escada. Reconheci-te como se te tivesse visto na véspera. E não te via há três ou quatro anos. Vinhas acompanhado. Atravessaste toda a sala, um clarão sempre a brilhar no canto furtivo do meu olhar. Sei que ao longo dessa travessia, que te trouxe até à mesa ao lado da minha, os nossos olhares cruzaram-se, sem se concederem o mínimo sinal de mútuo reconhecimento. A tua companhia (o teu novo amor?) sentou-se, e tu , julgo que sorrindo, vieste até junto da minha mesa e cumprimentaste-me com um aperto de mão. Cumprimentaste também a pessoa com quem eu estava. Trocámos palavras de circunstância, espirituosas, sobre os filmes que íamos ver. Foste-te sentar, de frente para mim. Não olhámos mais um para o outro. Quando saí (eu estava de saída, já tinha acabado de jantar), tu falavas ao telemóvel. Toquei-te no ombro: "tchau", e tu respondeste. Desci a escada, deixando a sala do restaurante a arder em labaredas atrás de mim. Ainda agora trago queimada a marca da palma da tua mão no meu peito.
rosas

opiario

Meu caro: suponho que aí do teu lado do equador seja já o dia do teu aniversário. Por isso, aí fica inteirinho para ti, um dos meus poemas preferidos do Reinaldo Ferreira.

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva – nimbos e cerros –
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como partir sózinho
Sem um cavalo de várias cores?



Aos sonhos, então.
Um abraço de parabéns.
rosas

mona lisa smile + the human stain + freaky friday

Mona Lisa Smile
Inegavelmente, uma espécie de Clube dos Poetas Mortos no feminino. Infelizmente, o filme nunca consegue descolar dos clichés habituais deste género de filmes passados em escolas conservadoras onde um professor progressista vem dar a volta à cabeça aos alunos e arranjar problemas com o reitor! De qualquer forma, vê-se bem, é ligeirinho, não empastela. E tem um conjunto de actrizes que é sempre um prazer ver trabalhar: a Julia Roberts, a Kristen Dunst, a Julia Stiles, a Maggie Gyllenhaal, e a brilhantíssima Marcia Gay Harden. A MGH deve ser das melhores actrizes do cinema actual, e este filme mostra bem porquê: a sua é a única verdadeira personagem do filme, a que tem mais dimensão e profundidade, e isso deve-se inteiramente ao trabalho da actriz, que consegue dar ao seu personagem, apesar de todos os lugares comuns, um lado "edgy", sempre à beira da rotura, do abismo.
Mas o melhor momento do filme foi mesmo a surpresa de ver a Tori Amos no ecrã!

The Human Stain
Um filme doloroso, pesado, carregado de personagens que transportam uma qualquer espécie de maldição que lhes vem de dentro, e que os torna verdadeiros anjos caídos, almas penadas a arder no inferno dos vivos. Foi, desta maratona, sem dúvida a melhor proposta. Apesar de ser um filme com falhas, que nunca consegue encontrar o tom certo, e que é mais conseguido nas sequências da juventude de Coleman Silk, quando ele faz as opções que lhe vão manchar toda a vida (o título original, The Human Stain, é prodigioso), do que propriamente nas sequências da actualidade. E muitas dessas falhas repousam numa certa dificuldade em aceitar as escolhas dos actores: se Anthony Hopkins é, apesar de tudo, convincente no seu papel, já Nicole Kidman me parece um erro de casting mais desastroso.
Robert Benton é um realizador bissexto, que apesar disso, teve alguns sucessos, sendo que o maior foi o oscarizado Kramer Vs. Kramer.
É um daqueles filmes que ficam conosco muito depois de termos deixado a sala de cinema. Que nos obrigam a confrontarmo-nos conosco próprios. Sobretudo quando, como acontece com Coleman Silk, julgamos que toda a nossa vida pode ser construída por cima de uma mentira, e queremos ignorar que a mentira é como um cancro, que é sempre uma questão de tempo, e de oportunidade, que, por falta de fundações, essa vida de dissimulação e fingimento, comece a ruir como um castelo de cartas. E que é essa a verdadeira "human stian" que nunca conseguimos limpar da nossa alma, que nos suja e contamina por dentro, e que nos arrasta inevitavelmente para a queda.

Freaky Friday
Uma comédia da Disney, que pouco mais é do que um veículo para Jamie Lee Curtis. Bom, não é que isso seja em si uma coisa má, até porque a JLC é uma das minhas actrizes preferidas, com uma carreira sempre um pouco lateral, e que vem desde os tempos do Nevoeiro, de Carpenter, e Um Peixe Chamado Vanda, uma comédia deliciosa.
Vê-se bem, não ofende, mas também não se cola à memória.