December 27th, 2003

rosas

vai de carrinho

O Zézinho vai de carrinho. Quer dizer, vai trocar de carro. E a verdade é que não está feliz, como era suposto estar.
Bem, claro que estou contente por ir ter um carro novo, com ar condicionado, auto-rádio com reprodutor de cd's, estofos de cabedal, tecto panorâmico e muitas outras coisinhas que os carros agora trazem. Mas a verdade é que estou com muita pena de "deixar" o Punto GT. Nunca na vida hei-de ter um carro que me dê tanto gozo como deu o Punto. Além de que é já uma relação antiga de 10 anos (ia fazer em Abril), e nestes 10 anos aconteceram muitas coisas em que o carro foi parceiro ou esteve de alguma forma envolvido. As noites que passou abandonado em estações de serviço e parques junto às portagens da auto-estrada, quando eu andei por aí a namorar fora de portas (e era sempre uma ansiedade geladinha quando me aproximava do sítio onde o deixara por causa da iminência de mo terem roubado). As viagens para Lisboa sempre com o pé no fundo e o turbo no máximo (via-se, creio eu, o ponteiro da gasolina a descer...), o gozo que me deu quando cheguei depois dos 3 meses nos EUA e tinha o carro no aeroporto e mal entrei e o pus a trabalhar tive a solar sensação de que estava em casa. O gozo de sentir aqueles 136 cavalitos ali, todos debaixo do pé do acelerador. A estabilidade nas curvas, sentir o carro no volante, sentir que somos nós que conduzimos o carro e não que somos conduzidos por ele. Trepar as subidas de Minde sempre a abrir, e a deixar para trás os beamers azuis escuros a não perceberem que raio de Punto azul era aquele.
Se há característica masculina verdadeiramente imbecil, com o seu toque de freudianismo de trazer por casa, é esta relação afectiva com os automóveis. Nunca percebi nada de carros, aquela coisa que está por debaixo da tampa é para mim um mistério insondável, e, no entanto, sinto o Punto como uma verdadeira extensão, mecânica e potente, do meu corpo (lembram-se do Crash do Cronenberg? Pois!)
Por tudo isto, estou contente por ir ter um carro novo, mas estou com um desgosto imenso por "deixar" o Punto. Até me apetece chorar. Quando penso que daqui a uns dias terminará esta relação tão satisfatória de 10 anos, apetece-me desfazer o negócio e ficar com ele. Com o meu Punto Azul.
Apetecia-me ficar aqui horas e horas a falar do meu Punto. A contar histórias, a elogiar-lhe as prestações, a curtir o gozo que me deu guiá-lo. Mas realmente o ridículo deve ter um limite. Pronto.