December 26th, 2003

rosas

não podes fugir

Grande parte (e da melhor) deste fim-de-semana natalício a meio da semana foi a ouvir o último disco do Camané. Uma obra prima, que deva ser obrigatório em todos os lares portugueses primeiro, do mundo depois, quando o resto do mundo descobrisse que Portugal ainda é capaz de dar novos mundos ao mundo. Já comecei a disparatar numa entrada que se queria séria. Bom, o disco é duplo e devolve dois tipos de registos ao vivo: o primeiro, nos palcos ditos sérios: o CCB, o Rivoli, e mais um ou dois no estrangeiro; o segundo, numa casa de fado, a Taverna do Embuçado. Diferentes repertórios para ambientes diferentes, que revisitam grande parte dos "grandes êxitos" do melhor fadista português da actualidade, e um dos melhores de sempre (apenas um fado é repetido nos dois discos, e é uma aventura saborosa descobrir as diferenças de registo usadas por Camané nas duas interpretações). O disco é lindíssimo, os arranjos são sóbrios mas exuberantes (eu sei que parece uma contradição, mas é mesmo assim), e a voz do Camané... nem é tanto a voz, ou não é só a voz, é o fraseado, a dicção, a forma como a voz se projecta, a contenção, tudo isso que transforma a audição de Camané numa experiência de emoção e elevação. Não sei qual é o contributo do José Mário Branco para este sucesso, mas suponho que seja feliz. O fado de Camané é devedor ao blues, ao jazz, para além naturalmente de um profundo respeito (e respeito não é sinónimo de veneração seguidista e obrigada) pela tradição do fado, e suponho que essa dívida grande à música que transparece no disco, tenha qualquer coisa a ver o JMB, mas não sei.

Uma das coisas fantásticas do disco, é, no concerto do Embuçado, o Fado da Sina. É possível ouvir sempre em fundo a Hermínia, mas nem por um momento Camané abdica do direito de transformar a canção num fado seu. E, ao contrário de outras fadistas que pegam em fados clássicos, nem precisa de "esticar" a canção, de mostrar que tem tanto ou mais "power" do que o intérprete original; não, antes pelo contrário, Camané segue a interpretação sempre coladinho à melodia, ao texto, e é por isso, mais uma vez, que sobressai e personaliza a sua interpretação, sem exageros, sem "trinados", sempre sóbrio e contido, e a comover-nos. É um fado muito lindo, dos meus preferidos de sempre. Ontem, quando o ouvia pela "enésima" vez, a minha mãe disse que tinha sido ela que me tinha ensinado a gostar deste fado. É verdade, mas também é verdade que quase todo o meu gosto pelo fado, pelos fados, passa pela minha mãe, também um pouco pelo meu pai e pela minha tia. Foi com eles os três que aprendi a ouvir o fado, a conhecer os fados, a aventurar-me a ouvir os discos de fado que a minha tia compra a esmo. Esta Fado da Sina apareceu, se não estou em erro, num filme, Homem do Ribatejo, que eu tenho a vaga ideia de ter visto na televisão, e onde a Hermínia aparecia de cigana a cantar este fado.

Não sei se acontece com toda a gente, mas comigo acontece a minha "cabeça" escolher uma versão das canções de que eu gosto e ficar com ela. Algumas vezes nem sequer é a versão original; é, suponho, aquela de que mais gosto, se bem que este "gostar" seja um processo totalmente irracional e involuntário. Mas é assim, quando há várias versões de canções de que gosto, há sempre uma versão, sempre a mesma, que me sobe aos ouvidos pelo lado de dentro de cada vez que me lembro da canção. Estou curioso para ver qual das versões do Fado da Sina vai "ficar". Por enquanto, parece-me que continua a ser a da Hermínia, apesar do imenso poder da frase "Não podes fugir" na versão do Camané: é uma coisa arrepiante, quando tudo pára e só se ouve a voz dele, a dizer mais do que a cantar, num tom que é ao mesmo tempo de comando e de angústia e de revolta e de resignação: "não podes fugir".
Bom, seja como for, aqui fica a letra para podermos todos fazer um karaoke.

Fado da Sina, Amadeu do Vale/Jaime Mendes

Reza-te a sina
Nas linhas traçadas
Na palma da mão
Que duas vidas
Se encontram cruzadas
No teu coração
Sinal de amargura
De dor e tortura
De esperança perdida
Indício marcado
De amor destroçado
Na linha da vida.

E mais te reza
Na linha do amor
Que terás de sofrer
O desencanto
Ou breve dispor
De uma outra mulher
Já que a má sorte
Assim quis
A tua sina te diz
Que até morrer
Terás de ser
Sempre infeliz.

Não podes fugir
Ao negro fado brutal
Ao teu destino fatal
Que uma má estrela domina
Tu podes mentir
Às leis do teu coração
Mas ai, quer queiras, quer não
Tens de cumprir a tua sina.

Cruzando a estrada
Da linha da vida
Traçada na mão
Tens uma cruz
Paixão mal contida
no teu coração
Amor que em segredo
Nasceu quase a medo
Para teu sofrimento
Tens sempre esta imagem
A grata miragem
Do teu pensamento.

E mais ainda
Te reza o destino
Que tens de amargar
Que tua estrela
De brilho divino
Deixou de brilhar
Estrela que Deus te marcou
Mas que tão pouco brilhou
E cuja luz
Aos pés da cruz
Já se apagou.

Não podes fugir
Ao negro fado brutal
Ao teu destino fatal
Que uma má estrela domina
Tu podes mentir
Às leis do teu coração
Mas ai, quer queiras, quer não
Tens de cumprir a tua sina.
rosas

contratempo

Tenho amanhã a minha maratona de inverno, a M. veio de propósito dos EUA para isto, e acabo de ver que o Zatoichi saiu de cartaz no Porto! Estou tão irritado que precisava de bater em alguém para melhorar. A quem é que um gajo pode processar num caso destes? Caramba, agora até os programadores das salas de cinema parece que andam a brincar com a vida das pessoas...