December 21st, 2003

rosas

blogaysfera

Era inevitável, o aparecimento de blogs portugueses assumidamente gay. Alguns já andam por aqui há uns meses, mas parece-me que o boom dos blogs de temática lgbt, ou em que a questão lgbt seja tratada com alguma frequência, está a acontecer agora.
O innersmile não é um blog gay (o innersmile não é um blog!), mas também não disfarça e assobia para o lado. Não é que isso seja muito importante. Mas já basta o que basta lá fora, na vida real, em que o jogo da dissimulação tem de ser jogado com técnica e com arte. Aqui não. Mas também não é uma causa! Enfim, o tema vem à colação quando tem de vir, tal como ser-se sportinguista (há coisas que é muito difícil assumir publicamente...), ou gostar de hagen dasz coockies & cream. Claro que a questão não é assim tão simples, mas o que quero dizer é que no innersmile o tema aparece quando faz sentido que apareça. Como todas as outras coisas que por aqui se estendem.
No livejournal, ainda não se notam os journals onde a questão apareça à luz do dia. O livejournal em Portugal ainda está no armário. Apesar de no livejournal, sobretudo nos Estados Unidos, mas também em português do Brasil, o número de lj's gays ser imenso. De qualquer forma, nalguns a questão aparece timidamente. Noutros, é o "gaydar" que funciona.
Mas, como referi no início, começam a aparecer os blogs made in Portugal onde se discute e trata dos assuntos lgbt. A cultura gay começa, e ainda bem, a entrar pela blogosfera portuguesa. Alguns dos blogs que listo a seguir sigo já há algum tempo. Outros surgiram muito recentemente e ainda estamos para ver se pegam. De qualquer forma, aí está, para quem possa estar interessado, uma lista de blogs portugueses lgbt. Poderá haver outros, mas estes foram os que eu encontrei e que visito mais assiduamente. De qualquer forma, seguindo os links nestes blogs, é sempre possível descobrir outros. Parece-me que é de elementar justiça começar pelos blogs do Miguel Vale de Almeida e da Anabela Rocha. Porque são dos mais antigos e são também dos mais comprometidos e dedicados à causa. Os restantes vão por ordem mais ou menos alfabética.

Os Tempos Que Correm
Queer Blog
All Of Me
Assumidamente
Cacaoccino
Casal Gay
Coisas Que Me Irritam...
Conversas Coloridas
Janela A Duas
O Meu Olhar
O Outro Eu De Mim Mesma
Pinkleopard
Renas E Veados
T2 Com Varanda
rosas

architects may come and architects may go

Na Pública de hoje, um artigo sobre os projectos de Frank Lloyd Wright para a cidade de Bagdad, na década de 50. Há nos desenhos de Lloyd Wright uma poética que os torna objectos de arte em si, independentemente dos projectos virem ou não a ser construídos. Um "sonho feliz de cidade", como na canção de Caetano. Um visionarismo libertador. FLW acreditava na dimensão civilizacional da arquitectura, acreditava no futuro, nas cidades, no progresso, de uma forma que quase poderíamos apelidar de revolucionária. Há, digamos, um sentimento de esquerda na arquitectura de FLW. Não é uma arquitectura feita para os homens, é antes uma arquitectura que acredita nos homens. Quer dizer, eu não percebo nada do assunto, estou só a dizer o que penso.
Os projectos de que a Pública hoje fala, foram feitos na década de 50 para o Rei Faysal II. Feita a revolução no Iraque, deposto o rei, foram abandonados. Lloyd Wright morreria poucos meses depois.

Por estes dias, tem-se falado muito de um filme do Jacques Tati, Playtime. Apresentado como a grande opus do realizador, foi um filme inegavelmente falhado, mas, pior, foi um total insucesso, que arruinou Tati, e não só a sua carreira. Não sei se é o meu filme preferido do Tati, acho que não, divirto-me muito mais com As Férias do Sr. Hulot ou com o Mon Oncle. Ou mesmo com o Traffic, o Há Festa na Aldeia ou o Parade, que só vi uma vez, no Gil Vicente, há uma eternidade de tempo. O Tati é descomunal, é uma coisa assim gigantesca, um nome dourado na história do cinema, e no da comédia, claro. Mas o Playtime é um filme desmesurado, a romper os limites não só do género comédia, mas o próprio conceito de cinema, enquanto dispositivo narrativo de entretenimento. Não é um filme de 'gags', como os demais filmes cómicos, mas é como se o filme ensaiasse uma nova forma de 'gag', que se inscrevesse não na matéria fílmica mas mais no próprio acto de filmar. O 'gag' não está 'dentro' da cena, mas na própria construção da cena, na própria composição do plano, na forma como as coisas - os personagens, os adereços, os cenários, a banda sonora - se vão organizando em frente à câmara. É uma obra experimental, a todos os níveis (veja-se, ou ouça-se, a banda sonora que é uma partitura de sons e apontamentos musicais), e talvez isso explique o tremendo insucesso. E o prazer com que ele está a ser redescoberto hoje em dia: é sempre mais fácil olhar-se para uma obra que foi de tal modo inovadora e radical, com todos os contributos culturais e analíticos com que o tempo entretanto foi enriquecendo o nosso olhar.
Eu tive a sorte de ter visto os filmes do Tati nos finais dos anos 70, quando o Gil Vicente era a melhor sala de cinema do mundo, misto de cinemateca e de grande sala de cinema popular, graças ao ecrã de 70 mm, único na cidade, e por isso, onde passavam todos os filmes grandes: grandes na dimensão da obra e grandes no tamanho da película!

Mas é curioso. Entre o sonho visionário e harmonioso de Lloyd Wright e o pesadelo urbano-modernista de Tati, as nossas cidades mergulharam antes por uma qualquer fractura de mediocridade, onde apenas subsiste a lógica dos escritórios, das grandes superfícies, das periferias suburbanas, e dos entediantes engarrafamentos.