December 19th, 2003

rosas

mangas verdes

Deve ser verdade que por cada ferida que curamos, nova ferida se abre.
Tenho aquilo a que, à falta de melhor definição, chamo de nostalgia pela infância da minha Mãe. É uma coisa que eu não sentia antes de ter ido a Moçambique em Janeiro deste ano de 2003. Antes de ter visto as ruas, as casas, os jardins, as sombras, onde ela morou com o seu corpo. Não sinto nostalgia da minha própria infância, essa foi a ferida que eu curei nessa visita à terra (e ao país) onde eu nasci. Curei-a, posso precisar, no dia dezasseis de Janeiro, na tarde desse dia dezasseis, quando voei por todas as ruas e cheirei a luz e a cor, e me medi de encontro às casas e às ruas e às pessoas com quem me cruzei. Curei-a nessa noite, quando, deitado a poucas dezenas de metros do que foi o meu quarto de criança, revivi e me reconciliei com um país e uma infância que tinha sido abandonada quase trinta anos antes.
Mas quando curamos uma ferida, abrimos outra. A nostalgia da memória. De uma memória alheia, ainda para mais. A infância da minha Mãe era um abstracção, um puro exercício de pequenas histórias e anedotas, de serões com as tias a cantarem as canções e a falarem de gente que, no que me dizia respeito, nunca tinha existido. Mas depois de eu ter visto as moradas dessa infância, depois de ter passeado nas ruas, bebido à sombra das acácias, apercebi-me de como tinha havido um tempo, como esse tempo tinha sido generoso nas cicatrizes que deixou, como a minha Mãe tinha tido uma vida de pessoa, e não apenas a vida de mãe, que era a única que eu conhecia.
Não foi uma ferida que chagou depressa, como essa cura de que falei, e que ardeu, chorou, e sarou. Não, esta ferida veio de Moçambique pequenina como uma bactéria (digo eu, que nunca vi nenhuma), trouxe-a na bagagem, entre as páginas dos livros, nos grãos de areia presos à sola das sandálias.
Foi crescendo nas palavras, nos poemas, nos nomes. Como em ‘Munhuana’. A gente diz ‘Munhuana’ e a água floresce na boca. A gente diz ‘Munhuana’ e vê a minha Mãe, sete ou oito anos, a caminhar de manhã cedo para a escola, como um passarinho. Vê-a a crescer, a ser uma menina, e percebe melhor a sua relação com o mundo, percebe porque é que ela tem aquela medida e aquele peso, qual foi o ar e o calor que a moldou. Vê-a a ter namorados (um deles havia de ser o meu pai), a trabalhar, a dançar nos bailes, a jogar basquete, e percebe. Percebe, porque viu as marcas que ela deixou espalhadas pela cidade, nos nomes das ruas que já lá nem estão, nos prédios, nos passeios, nas árvores. Porque vemos, com uma clareza cristalina, que havia uma cidade que tinha a sua idade, a idade da minha Mãe. Uma cidade que tinha a sua idade e o seu corpo, elegante e bonita.
E então é uma ferida que vai crescendo devagar e quando damos por ela, já está instalada. Uma ferida de memória, de tempo, de coisas que se perderam e que não são substituídas pelas outras coisas que entretanto nasceram ou chegaram. Talvez seja que apenas nos dói aquilo que não temos, aquilo que tivémos e perdemos. Que nos dói a ausência. Talvez seja que apenas nos dói a morte, que vai chegando e vai chegar. E percebermos que uma vida é sempre um arco que se interrompe.
rosas

noémia, billie e tu (http://www.livejournal.com/users/donnalee/)

Este poema foi escrito em 1949, em 24 de Maio de 1949, numa austral periferia do mundo. Muito antes de Rosa Parks se ter recusado a sentar-se nos bancos traseiros de um autocarro, e muito muito antes de nós termos aprendido a comovermo-nos com a voz "estranha, profunda, quente" de Billie Holiday.
Escreveu-o uma mulher, que na altura tinha pouco mais de vinte anos, e que, ainda antes do mundo descobrir o absurdo que é a descriminação, usava o consolo da voz de uma das maiores cantoras de sempre, para exprimir a perplexidade dolorosa de haver escravatura.
Essa mulher chamava-se Noémia de Sousa e faleceu, há pouco mais de um ano, em Lisboa. O poema, intitulado A BILLIE HOLIDAY, CANTORA, foi escrito em português.


"Era de noite e no quarto aprisionado em escuridão
apenas o luar entrara, sorrateiramente,
e fora derramar-se no chão.
Solidão. Solidão. Solidão.

E então,
tua voz, minha irmã americana,
veio do ar, do nada nascida da própria escuridão...
Estranha, profunda, quente,
vazada em solidão.

E começava assim a canção:
"Into each heart some rain must fall..."
Começava assim
e era só melancolia
do princípio ao fim,
como se teus dias fossem sem sol
e a tua alma aí, sem alegria...

Tua voz irmã, no seu trágico sentimentalismo,
descendo e subindo,
chorando para logo, ainda trémula, começar rindo,
cantando no teu arrastado inglês crioulo
esses singulares "blues", dum fatalismo
rácico que faz doer
tua voz, não sei porque estranha magia,
arrastou para longe a minha solidão...

No quarto às escuras, eu já não estava só!
Com a tua voz, irmã americana, veio
todo o meu povo escravizado sem dó
por esse mundo fora, vivendo no medo, no receio
de tudo e de todos...
O meu povo ajudando a erguer impérios
e a ser excluído na vitória...
A viver, segregado, uma vida inglória,
de proscrito, de criminoso...

O meu povo transportando para a música, para a poesia,
os seus complexos, a sua tristeza inata, a sua insatisfação...

Billie Holiday, minha irmã americana,
continua cantando sempre, no teu jeito magoado
os "blues" eternos do nosso povo desgraçado...
Continua cantando, cantando, sempre cantando,
até que a humanidade egoísta ouça em ti a nossa voz,

e se volte enfim para nós,
mas com olhos de fraternidade e compreensão!"



Como calculas, não consigo ler o poema sem pensar em ti, na tua voz, e no teu amor pela Billie Holiday. Por isso esta entrada é toda para ti, Petra.