December 17th, 2003

rosas

conto: love's never easy

LOVE'S NEVER EASY

Não sei se estou acordado ou a sonhar. Pela janela entra uma luz cinzenta e baça, o relógio de pulso mostra que passa pouco das cinco e meia da manhã, e eu ouço distintamente, por entre o ruído dos carros que toda a noite atravessam a avenida onde fica o hotel e o tumulto das vozes que começa a crescer nas ruas, uma voz feminina a cantar: "love’s never easy, take it from a girl who knows". Não sei bem onde estou. Se estiver acordado posso estar num hotel barato, numa das mais movimentadas avenidas de Bombaim. Se estiver a dormir e isto não passar de um sonho, sabe-se lá em que avenida de que cidade, de que parte do mundo, pode ficar este irreconhecível quarto de hotel.

Julgo que estou na Índia. Cada cidade tem um rumor próprio e definido, se escutarmos com atenção podemos reconhecê-lo através do silêncio da noite e sabemos assim em que cidade estamos. Mas quando esse rumor que nos chega parece conter os rumores nocturnos de todas as cidades do mundo, podemos pensar, se estivermos acordados, que estamos em Bombaim, na Índia. Que é de madrugada, que o dia não tarda a romper, que já há uma luz cinzenta e baça que ilumina o quarto onde estamos como se fosse uma fina película de luminosidade, a necessária para conseguirmos reconhecer as formas que nos rodeiam, mas ainda insuficiente para conseguir ver as cores, e identificar, dessa maneira, o casaco que está atirado para as costas da cadeira direita que pusemos a travar a porta.

"Love’s never easy, take it from a girl who knows". O princípio da canção confunde-se com a madrugada, parece voar nesses primeiros raios de luz que atravessam a cortina rasgada da janela, e traz-me imediatamente à memória o que pode ter acontecido na noite anterior. Na estação central, um comboio a vapor prepara-se para iniciar a sua longa viagem. O fumo do vapor espalha-se pela gare, ouve-se o silvo agudo da máquina, e eu olho uma última vez para trás, e vejo um rosto de homem debruçado a espreitar para fora. O rosto do homem é simultaneamente ansioso e calmo, como se esperasse encontrar alguém conhecido cá em baixo, mas não ficando demasiado desapontado por isso não acontecer. Talvez, se isto não for um sonho, o meu rosto seja tão expressivo como o do homem, cujo olhar se cruza com o meu, e ele pense que não era o seu rosto que eu esperava ver quando me voltei uma última vez para o comboio que abandonava a gare, mas que não fiquei muito desapontado por ser o seu o olhar que se cruzou com o meu.

Quando o comboio passa por mim em velocidade crescente, reparo que o homem ainda permanece à janela, olhando, agora, fixamente, em frente. Os olhos azuis brilham com intensidade por entre as papos inchados das pálpebras. Tem um bigode azul e o cabelo azul de tão negro e duas rugas profundas que separam a boca das maçãs do rosto, e que contrastam com a pele lisa e brilhante da testa. Mas é impossível eu lembrar-me com tanto rigor destes pormenores, de modo que, penso eu, o mais provável é estar mesmo a sonhar, e não se ter passado nada quando olhei para trás uma última vez para o comboio que partia da gare por entre os grossos rolos de vapor que inundavam o passeio da gare e o silvo agudo da locomotiva.

Houve efectivamente uma noite passada, isso é um facto, independentemente de eu estar acordado ou a sonhar. E eu fui à estação central por volta das nove da noite porque sabia que alguém importante partia nesse comboio para fora da cidade que, se eu estiver acordado, é Bombaim. Ao lado da estação, ou daquilo que nos meus sonhos, é tomado como sendo estação, há um vasto bairro de lata. Eu sigo, com a incerteza temerosa que assalta alguém que se passeie àquela hora da noite por uma estrada longa e empoeirada que delimita e acompanha um bairro da lata. E é no momento em que pára à minha frente um jeep verde escuro e dele desce uma rapariga vestindo um sari azul que desaparece a correr para o interior labiríntico do bairro, que chega até mim, pelo mesmo caminho escuro e tortuoso que a rapariga havia tomado, a voz feminina que canta "love’s never easy, take it from a gil who knows". Logo a seguir, abre-se a porta do jeep do lado do condutor e um homem iça-se no estribo espreitando para o sítio por onde a rapariga tinha desaparecido. Vejo a boca do homem a abrir-se e vejo os seus lábios a formar, num grito, o nome da rapariga, mas não ouço nenhum som, ou porque o grito do homem lhe morreu na garganta antes de ser solto, ou porque o intenso ruído à volta, ao longe ainda o silvo agudo do comboio, abafou a voz do homem, ou porque tudo não estava a passar de um sonho meu, e nos sonhos há gritos mudos com alguma frequência.

Eram onze horas quando entrei no hotel barato, e o empregado, que tem sempre um ar adormecido, olhou-me e perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que sim, mas ele insistiu se eu tinha febre. Encostei as costas da mão à testa e respondi que sim, que sentia um pouco de febre. Ele perguntou se eu queria que ele me chamasse um médico, e apesar de ter respondido que não, pouco tempo depois alguém batia suavemente à porta do meu quarto. Desencostei a cadeira, e abri a porta para um homem que se parecia extraordinariamente com o homem do comboio e que se apresentou como o médico que eu tinha pedido para chamar. Como eu não tenho a certeza de estar acordado ou a sonhar, não protestei que tinha dito que não precisava de um médico, e respondi prontamente a todas as suas perguntas. O médico sorriu com benevolência e disse-me para eu não me preocupar, que não tinha nada que uma simples injecção no braço não conseguisse curar. Talvez seja disso esta dor fina e ligeira que sinto na curva do braço. Ainda a porta mal se tinha fechado atrás do médico, eu já estava deitado, completamente vestido, e a dormir profundamente.

Acordo, ou penso que acordo, pouco depois das cinco e meia da manhã. Entra pela cortina rasgada da janela uma luz baça que vai clareando o interior do quarto. Ouço distintamente: "love’s never easy, take it from a girl who knows". É uma voz feminina que canta, e o som da sua voz, apesar de suave e delicado, sobrepõe-se ao rumor que cresce nas ruas, à vozearia, ao ruído do motor dos carros que toda a noite cruzaram avenida onde fica o hotel, e que é das mais movimentadas avenidas da cidade. Que, se eu estiver acordado, pode ser Bombaim.