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rosas
innersmile
O Retorta tem publicado uns posts (lindos e com o bom-gosto habitual, de visita absolutamente obrigatória) a propósito do espectáculo A Noite, que o José Mário Branco fez no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1985. Apesar de ter o LP (já reposto em CD) respectivo, não vi esse espectáculo do JMB. Lembro-me, antes disso, de ter visto o Ser Solidário, no velho cinema Sousa Bastos, e algumas outras vezes já mais recentemente (uma das quais foi um dos concertos que estiveram na origem do Ao Vivo em 1997, que foi um os melhores espectáculos que eu vi na minha vida). Aliás, foi esse concerto no Sousa Bastos que me tornou definitivamente um apaixonado pela música do JMB, pelas suas canções, pela sua postura artística, pelo seu talento de arranjador, pela sua entrega em palco que é, a um tempo, total, sincera e teatral. O JMB quando está em palco, está em palco, sabe que pode cometer excessos, que se pode revelar e expor, porque quem está em palco não é homem, mas o artista, o artista completo, que, por seu lado, já inclui o homem que lhe dá corpo e alma. Ver o JMB fazer ao vivo o FMI foi uma experiência e uma lição (de coragem, de compromisso, mas também de liberdade) que não vou esquecer para o resto da vida.

Apetecia-me por aqui uma das canções mais bonitas do JMB, a ‘De pé (Saudação a Antero)’, mas acho que já falei dessa canção outras vezes aqui no innersmile. Além disso, comprei este fim-de-semana um livro da Natália Correia, Não Percas A Rosa: Diário ou Algo Mais, em que a poeta regista a sua vivência e as suas impressões desde o dia 25 de Abril de 1974 até Dezembro de 1975. Pois bem, logo na entrada do dia 25 de Abril, Natália regista a estranheza, e o maravilhamento, de ouvir a rádio uma canção feita com um poema de sua autoria. Essa canção é, naturalmente, a QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS, e foi composta pelo José Mário Branco. Que, de resto, e que me lembre, já a gravou pelo menos 3 vezes: a primeira, no álbum Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades, a segunda no Ser Solidário uma terceira no Ao Vivo em 1997. É uma canção, é uma poema!, admirável, lindíssimo, de uma tristeza e de uma raiva que só cabem naquelas palavras não em nenhumas outras. É curioso que tendo sido escrita como denúncia do poder castrante da censura, com um forte e indisfarçavel cunho político, e até mesmo panfletário (e é curioso que a Natália, no livro, e apesar de comovida por o ouvir na rádio, menospreza a qualidade poética do texto), pode ser hoje lido de uma forma mais abrangente e profunda, mais livre e universal. É, e é-o sempre, uma canção sobre a juventude, sobre essa extrema perplexidade que é olharmos pela primeira vez para um mundo “onde não vem a nossa idade”. É curioso, quando hoje nos comovemos a ver um filme como o Elephant, do Gus van Sant, como ao ler este poema todo o filme parece estar nele inscrito, de tal forma são universais os sentimentos expressos por Natália. Espero que tenham paciência para ler o poema todo. É daqueles poemas que nos pode iluminar para sempre.

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte