December 14th, 2003

rosas

lie

LIE (que são as inicias da auto-estrada Long Island Expressway) é um filme perturbador. Não tanto pelo tema, a relação entre um rapaz de 15 anos para quem a vida começa a correr mal e um velho veterano de guerra pedófilo, mas sobretudo pelo tom ambíguo com que Michael Cuesta, o realizador, desenha essa relação. Por um lado, Big John corresponde ao figurino do pedófilo: os sites na net, as fotos de rapazinhos novos, as fitas porno, os engates no parque, e a sua respeitabilidade entre os cidadãos respeitáveis da cidade; por outro, Howie parece ser a vítima perfeita, um adolescente baralhado em relação à sua sexualidade, com a família em acelerado processo de decomposição. Mas aquilo que parecia ser tiro e queda, complica-se por força da complexidade psicológica das personagens, e o filme cresce ao investir num registo de ambiguidade, nunca resultando muito claro se efectivamente acontece alguma relação sexual entre os dois, e sobretudo, ao estabelecer uma rede de afectos entre as duas personagens que ultrapassa em muito a pura dimensão da pederastia.
Mas note-se que o filme não pretende fazer uma “limpeza” da pedofilia, como aliás resulta da caracterização do personagem Big John, que acumula todos os sinais de compulsão, frieza e calculismo que transformam os pedófilos em agressores. Mas o que é interessante, e perturbador, é como o filme estabelece toda uma complexa teia de afectos, alguns deles mesmo de sinal contraditório, que envolve e liga todos os personagens do filme, mas sobretudo os dois protagonistas. Este complexidade pode resumir-se numa cena exemplar do filme, em que Big John ensina Howie a barbear-se usando uma daquelas lâminas compridas dos barbeiros, e onde se condensam todos os sentimentos que ligam os dois: o perigo, a amizade, a protecção, o fascínio, a obsessão, a compulsão, a sedução, o terror.