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eu não gosto do bom gosto
rosas
innersmile
Há uma coisa que me faz muita confusão: a maior parte das pessoas parecem ser sempre tão auto-confiantes, tão cheias de auto-estima, tão convencidas de que são muito boas (em todas as acepções do termo), tão vaidosas. Algumas mesmo tão arrogantes. Eu, então, a mim, parece-me que estou sempre em desequilíbrio, sempre à beira da fractura, sempre em processo de perda. Mesmo quando estou na boa, a sentir-me o king of the world, nunca me dá para me esquecer de que não passo de um montinho de trampa. Quer dizer, não é que eu seja um tipo muito deprimido, que passo os dias a contemplar a minha própria morte. Aliás, tenho de confessar que a maior parte dos dias nem me lembro de que vou morrer. Mas mesmo sem estar sempre a contemplar o meu fim, a verdade é que estou sempre muito desperto para a possibilidade de que o que eu penso acerca de um assunto seja um terrível disparate. Por isso, porque tenho muito poucas certezas. Mas também se tenho a certeza de alguma coisa, posso até fazer de conta que concordo com a opinião contrária só para obviar à discussão, mas nunca vacilo na crença. Anda um dia destes me disseram que uma das minhas frases recorrentes é “não tenho a menor dúvida”. Enfim, tenho dúvidas que seja...
Vem isto a propósito dos blogs. Estava há dias a ler um blog muito interessante, e até a pensar em escrever ao seu autor só para dizer que estava a gostar de ler. Pensei mesmo dar-lhe o endereço do innersmile e convidá-lo para uma visita. Mas depois assustei-me com o tom peremptório e mesmo majestático das suas opiniões (normalmente cinéfilas). Não sei se até é o caso, mas chocam-me sempre um pouco as opiniões negativas muito definitivas. Quer dizer, se eu escrever a dizer que este filme ou aquele livro são uma grandessíssima maravilha, não vejo porque é que isso há-de ofender alguém. Quer dizer, alguém pode achar que eu sou um atrasado mental se eu disser que adoro a Celine Dion, mas julgo que ninguém pode ficar ofendido com isso; podem-me desculpar o facto ou cortar relações comigo por causa desse meu fraco gosto, mas zangarem-se, ofenderem-se, não, não há razões para tal . Agora se eu escrevo a dizer que outro filme ou livro é uma merda de todo o tamanho, posso estar a entristecer, no mínimo, uma pessoa que até gosta muito desse livro ou filme, para quem esse filme ou livro tem um significado muito especial. Posso dizer que não gosto, mas acho eu, sinto sempre que tenho de ressalvar a hipótese da outra pessoa gostar. Quer dizer, eu não gosto da Celine Dion, mas isso não me torna melhor ser humano do que um grande amigo meu que, vá-se lá saber porque carga de água, gosta da Celine Dion. Epá, eu até nem tenho coragem de lhe dizer que não gosto da Celine Dion. Um destes dias ele telefonou-me só para me dizer, com o som ligado, que tinha feito o download de um disco da Celine Dion. Quando ele me perguntou se eu gostava da Celine Dion, respondi com um “sim” muito tímido e enfiado, mas não tive coragem para dizer que não, que até abomino essa tipa, que a voz dela me irrita profundamente. Temi que ele se oferecesse para mo gravar, o que, felizmente, não aconteceu, mas pensei logo que se ele se oferecesse eu deveria conformar-me, agradecer e, em nome da nossa amizade, ouvir pelo menos uma vez a cópia do cd.
Bom, acho que fugi ao tema, mas também não faz mal, porque, à falta de tema mais interessante, só queria mesmo dizer que me faz um bocado de impressão aquele tom muito autoritário e convencido que as pessoas às vezes usam para defenderem as suas opiniões e os seus gostos. Mas a verdade é que acabei, num tom que procurei não fosse muito peremptório, a dizer mal da Celine Dion. Podia aproveitar que estou nesta, e já agora também dizia mal da Mariah Carey e da Laura Pausini. É que tirando estas três, e o Emanuel Pimba, também não há assim muito mais gente de quem eu não goste ao menos um bocadinho.