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mário de carvalho, kavafis, brendel
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O escritor Mário de Carvalho publicou um novo romance, Fantasia Para Dois Coronéis E Uma Piscina, que já me espreita aqui à minha frente apesar de ainda não o ter começado a ler. A propósito, o Mil Folhas de Sábado entrevista o escritor, pela mão de Tereza Coelho, que também publica uma 'exortação à leitura' deste novo livro do MdC, e que é um dos meus ficcionistas portugueses contemporâneos preferidos, nomeadamente no conto, e autor daquele que eu acho que é o mais perfeito romance escrito por um português vivo, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.
Na entrevista, Mário de Carvalho põe o dedo na ferida, sem poupar nos adjectivos, neste momento particularmente abjecto em que vive a sociedade portuguesa, dominada pela importância exagerada do futebol, pela nivelação rasa da televisão, pela total falta de sentido de futuro dos portugueses, e não apenas dos seus políticos, pela frivolidade que se instalou no país como um valor. É uma entrevista dura, para nós, portugueses, porque Mário de Carvalho, diz, num tom até de certa forma descontraído, meia-dúzia de verdades nada lisonjeiras e que são o retrato do nosso momento actual.

Na entrevista diz-se, creio que mais do que uma vez, que estamos já barbarizados, que os bárbaros já estão entre nós. Não tenho a certeza, mas julgo que isso seja uma referência a um poema do Kavafis, À ESPERA DOS BÁRBAROS, um poema genial, como toda a poesia do K, sobre o terrível vazio interior, dos povos como das sociedades, como até das pessoas, que a ausência de referentes exteriores (os bárbaros que não chegam) só ajuda a por a nu. Que nos diz, em suma, aquilo que se subentende na entrevista de Mário de Carvalho, que os bárbaros somos nós.
Infelizmente, o poema não está no volume que o Joaquim Manuel Magalhães traduziu, que são as traduções mais bonitas do K. Está na tradução do Jorge de Sena, mas como eu não gosto muito das traduções dele (parece-me que o JS procura sempre as soluções mais complicadas, tenta sempre dizer no maior número possível de palavras aquilo que faz muito mais sentido se for dito de forma mais económica), vou pô-lo aqui na tradução de João Carlos Chainho, e publicado num livrinho da hiena, Páginas Íntimas, que foi o primeiro livro do K que eu comprei.

- O que esperamos no Fórum, reunidos?

Os bárbaros, que hoje vão chegar.

- No Senado por que há tão pouca vida?
Por que estão os senadores sem legislar?

Porque hoje os bárbaros vão chegar.
O que podem legislar os senadores?
Quando eles chegarem haverá a sua lei.

- Por que se ergueu tão cedo o Imperador
e de coroa, solene no seu trono,
foi sentar-se à maior porta da cidade?

Porque hoje os bárbaros vão chegar.
O imperador aguarda o chefe deles,
e vai recebê-lo. Preparou, para lhe dar,
um belo pergaminho. Cheio
de nomes e de honrosos título.

- Por que aparecem os dois cônsules e os pretores
de vermelho e com togas bordadas?
Por que levam braceletes e ametistas,
anéis que fulgem com o brilho das esmeraldas?
Por que levam bastões preciosos,
de prata e ouro finamente cinzelados?

Porque hoje os bárbaros vão chegar;
e com tais coisas os bárbaros se encantam.

- Por que não vieram, como sempre, os oradores
fazer discursos e falar do que mais sabem?

Porque hoje os bárbaros vão chegar;
e detestam belas frases e discursos.

- Por que se ergue já tanto alvoroço
e tanta desordem? (Quão graves os rostos se fizeram.)
Ruas e praças por que estão desertas
e todos voltam para suas casas?

Porque é noite e os bárbaros não chegaram.
E uns tantos, que vêm das fronteiras,
já dizem que os bárbaros não existem.

- O que será de nós, não havendo bárbaros?
Eram eles a nossa solução.


Na sua crónica de sexta-feira passada no Público, João Bénard da Costa fala de Alfred Brendel como sendo o maior intérprete vivo da obra para piano de Mozart. Deus, como de vez em quando me quer provar que existe, pôs-me diante dos olhos um cd de Brendel tocando dois concertos para piano de Mozart. Por isso esta entrada foi escrita ao som perturbador e exaltante (cavalos à desfilada montados por cavaleiros de rosto encoberto e longas capas negras. De onde vem isto? De Amadeus?) do Allegro do Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor K. 466.