December 7th, 2003

rosas

nan goldin, sebastião alba e reinaldo ferreira

Não conhecia quase nada do trabalho de Nan Goldin até ter visto exposição que esteve o ano passado em Serralves. Desde então, é um amor que cresce a cada foto que vejo, nas revistas, nos livros, por aí. E como amar é conhecer, parece que de cada vez que vejo uma foto a compreendo melhor, cresce a minha capacidade de a compreender e, consequentemente, de a apreciar e conhecer.
As fotos de Nan Goldin conseguem gerir de forma única a distância do fotógrafo em relação ao objecto/sujeito da fotografia: nem demasiado distantes para se tornarem frias ou cínicas, nem demasiado próximas para com ele se confundirem. Ao contrário do que julguei entender quando vi a exposição em Serralves, o olhar de Goldin não é todo 'amoral', desprovido de uma axiologia, de um conjunto de valores. Mas é, de toda a forma, um olhar desprovido de juízos de valor, e é essa característica de ser um olhar que ama mas não julga, que lhe dá essa distância necessária para se ver sempre o objecto/sujeito da fotografia como um "outro", mas sempre com um calor, um aconchego, que é desarmante de ternura.
O desamparo das pessoas que povoam a objectiva de Nan Goldin é salvo pelo olhar protector que espreita por detrás da câmara.

Amar é conhecer e conhecer é amar.
A leitura de ALBAS prossegue, e cada vez mais este livro do Sebastião Alba é um clarão na noite escura, a cabeça que se encosta a um ombro e assim se salva da loucura. Como é difícil perceber que este Homem se tenha emprestado à indigência e ao álcool, ou melhor como é difícil perceber que só através da entrega à indigência e ao álcool este Homem tenha encontrado o espaço amplo da lucidez.
Tenho a mania de que conheceço razoavelmente a poesia do Reinaldo Ferreira, que leio e releio continuamente. Agora, numa das páginas do livro, Sebastião Alba reproduz e comenta um soneto de Reinaldo, que eu não reconheço. Fui procurar ao livro POEMAS do RF, e lá está o soneto. Como é que eu não apenas nunca 'li' este soneto, como além disso nem sequer o conhecia?! Percebo quando abro o livro de Reinaldo: o soneto, na página 39, partilha o livro aberto com o poema da página 38, que é o 'Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia'. Incrível, como ao longo de tantos anos, este poema que é um dos meus poemas mais que preferidos (aliás, até dá nome e mote ao innersmile, e se calhar até razão de ser) do poeta sempre ofuscou o soneto seu vizinho!
Mas graças ao Sebastião Alba, descubro o soneto. E que descoberta! Talvez valha a pena, para matar duas paixões com o mesmo tiro, pôr aqui o soneto de Reinaldo Ferreira tal como o Sebastião Alba o transcreve, contextualiza e traduz. Que coisa milagrosa: lêr um poeta pelos olhos de outro poeta.

«UM CAVALO DE MUITAS CORES

Coube-nos a sorte de ter vivido em Moçambique um grande poeta (1922-1959). Era homossexual mas nunca o verias num diálogo televisivo a propósito disso: não ia aos urinóis provocar os adolescentes. E com os amigos era de uma discrição que os marcou.
Sofria muito, mas como era um artista sério, aguentou-se. Lê este soneto dele:

"Quando as fachadas tumulares, de pardas,
defendem sonolências impassíveis,
sou livre para as boémias intangíveis
e a noite intui-me cúmplices mansardas.

Franzino e ruivo o céu todo tem sardas
e atraente nudez de impossíveis.
Eu sou talvez pintor de nus horríveis
zombo dos mestres e odeio as fardas

Mas, mal estéril assoma o brilho frio
- que sempre a madrugada me frustrou
o contacto eminente ao fugidio -

Tenho medo de quem nocturno sou
da minha afinidade a um desvario
que outro mais casto, em mim, repudiou."

Aí está o drama de Feinaldo Ferreira, mas com uma tal dignidade, dilaceração e beleza que nós, ditas pessoas normais, só podemos querer-lhe bem.
Vi fotografias dele. Era muito magro e as algibeiras estavam deformadas pelos papéis que trazia com ele. Antes de morrer já tinha um pequenino livro, com arrumo, "As poesias da tarde". Os restantes poemas estavam na mão dos amigos que os reuniram depois.
Amanhã vou a Lisboa ver as filhas. Não gosto da cidade, e não iria se Lisboa não tivesse as filhas lá dentro.»