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dancer
rosas
innersmile
Ando já há alguns dias para registar aqui um livro que estou a acabar de ler. É 'Dancer', de Colum McCann, uma biografia romanceada, ou melhor, um romance biográfico sobre o bailarino Rudolf Nureyev, que foi talvez a maior figura do ballet clássico do século passado (ou, se não a maior, uma das cinco maiores, seguramente). O livro é interessante precisamente porque recusa o cânone biográfico e é escrito como se Rudik fosse um personagem de ficção, recontruindo-lhe uma história, um passado, uma psicologia, um obectivo, um 'drive', como se faz para qualquer personagem de ficção. Mas é ao nível da escrita, mais do que propriamente no efeito reconhecedor da personalidade de Nureyev por detrás da persona do romance, que este livro se agiganta. É daqueles livros raros que nos agarram na primeira linha e só nos depositam alguns minutos depois de o terminarmos, narrado através de várias vozes, de amigos, professores, familiares de Rudik, ou mesmo só de pessoas que se cruzam com ele de passagem, seguindo uma linha cronológica solta e pouco rigorosa, que junta personagens históricas com personagens de ficção, que alterna trechos romanescos com outros mais 'documentais'.
Mas para além do virtuosismo da escrita, o livro devolve-nos uma personagem de Nureyev 'larger than life', completamente dominado pela obsessão da dança (o único ponto em que me parece que o livro falha um pouco é precisamente na descrição da dança, do movimento; não é que McCann não se esforce por encontrar um tom que se adeque ao feerismo sensorial e à estimulante actividade intelectual que se associa a um espectáculo de dança, mas parece que fica sempre um pouco curto. Talvez porque não seja possível descrever por palavras essa coisa sublime que é ver uma pessoa dançar), transgressor e subversivo, tanto quanto caprichoso e fútil, sensivel, inspirado, arrogante, mal-educado, impulsivo, violento, terno, meigo, humilde (a sua relação com Margot Fonteyn é sempre marcada por uma enorme humildade, quase subserviência). O livro escandalizou o mundo circunspecto do ballet ao narrar as escapadelas sexuais de Nureyev, quer nos clubes de sexo hard de NY quer mesmo nos intervalos dos espectáculos ("one only wishes the interval were longer", diz ele a certa altura), mas tudo isso ajuda a compor a personagem de Rudolf Nureyev como uma daquelas figuras que bebeu a vida até ao fundo do cálice, aquele fundo onde está depositado o veneno mortal.
Eu tinha lido uma referências ao livro e comprei-o em inglês, na fnac. Hoje vi à venda a tradução portuguesa, Bailarino, publicado pela Bizâncio. Fiquei com pena de já me faltar relativamente pouco para terminar, apetecia-me que esta aventura ainda estivesse a começar.
(A Salon.com tem uma crítica ao livro que ajuda a perceber o seu enorme sortilégio)
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