November 30th, 2003

rosas

master and comander

Acho que nunca vi um filme do Peter Weir de que não tenha gostado. Aliás, alguns dos seus filmes, como o Dead Poets Society, o Witness ou o Truman Show estão mesmo entre os meus filmes preferidos, aqueles que a gente não esquece, que o tempo não transforma numa amálgama desfocada num cantinho remoto da memória.
E essa foi mesmo a única razão porque fui ver o Master and Commander - The Far Side of the World (que raio de título, parece o nome de uma tese de mestrado). E mais uma vez isso aconteceu. O filme não é uma obra-prima, mas tem uma honestidade, um sentido do divertimento e da aventura, e ao mesmo tempo o cunho 'humano' que o Peter Weir sempre dá aos seus filmes, que o tornam diferente da maioria dos filmes de aventuras que passam por aí. Além disso, é um épico naval, um género cinematográfico que está um pouco em desuso, e que PW retoma com o sentido dos grandes épicos navais da época dourada do cinema de aventuras americano. As cenas de batalha estão muito bem encenadas e filmadas, há um tom de humor que diverte, o ambiente de 'honour among men' que está sempre à altura sem nunca se tornar confrangedor, e, tanto quanto julgo saber, o contexto histórico e naval é rigoroso.
É isso, o Peter Weir não é capaz de fazer maus filmes, ou, pelo menos, filmes de que eu não goste.

Comprei ontem o mais recente disco do Fausto, 'a ópera mágica do cantor maldito' (mais um título pouco feliz, acho eu), que é outra obra-prima do cantautor. É, como outros trabalhos dele, um disco temático, desta vez reflectindo sobre as carreiras dos chamados cantores de intervenção, mas em que o próprio Fausto não se retira da sua própria mira. As letras são sublimes, muito bem escritas, com uma qualidade de nível superior. A música e os arranjos estão ao nível do melhor que o Fausto tem feito. Isto que vou dizer é um bocado idiota, mas a única desvantagem deste disco é mesmo a marca impressiva do Por Este Rio Acima. É impossível libertarmo-nos desse disco sublime (e que se ouve sempre com uma surpreendente frescura e entusiasmo, apesar de já terem passado 20 anos ou mais), e, quando estamos a ouvir o Fausto, a memória está-nos sempre a traír e a puxar pelas melodias e pelas letras do Por Este Rio Acima.

Mandei vir da mediabooks, Vozes Moçambicanas, um conjunto de entrevistas feitas a vários escritores moçambicanos feitas por Patrick Chabal, antecedidas de um ensaio do autor sobre a literatura moçambicana. Chabal é professor de estudos da África lusófona no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do Kings College da Universidade de Londres.
As entrevistas do livro centram-se nos percursos dos escritores, as suas histórias pessoais, influências, e reflecções sobre a literatura moçambicana e aquilo que é a sua percepção do seu papel na história dessa literatura. Os entrevistados são poetas e prosadores, e Chabal procurou entrevistar escritores quer do período colonial quer do período pós-independência, e, entre os primeiros, autores 'europeus' e africanos. Como o livro tem quase dez anos, três das jóias da coroa da literatura de Moçambique, e que concedem no livro brilhantes e luminosas entrevistas, já não estão entre nós: Rui Knopfli, Noémia de Sousa e José Craveirinha.