November 23rd, 2003

rosas

mystic river

Clint Eastwood é um dos maiores, e raros, representantes do clássico cinema americano. Clássico, porque assenta sempre nas premissas narrativas que tornaram o cinema made in hollywood uma das mais universais formas de expressão “artística” (ou artística mesmo assim, sem aspas) contemporânea; mas clássico também porque acrescenta sempre alguma coisa a esses dispositivos narrativos, é sempre uma variação, ainda que ligeira e subtil, sobre um tema que é suposto ser tão bem conhecido (ou, melhor, dominado) pelo público a que se destina, como pelos seus autores. Clássico, enfim, porque consegue, simultaneamente, estar sintonizado com o seu tempo e libertar-se da prisão dessa contemporaneidade, e fazer o arco quer para a tradição do cinema em que se insere quer para os públicos que ainda hão-de chegar no futuro. O cinema de Clint Eastwood é sempre, nesta medida, um pouco mais do que puro divertimento, é sempre um case study do que pode ou deve ser um determinado cinema, ou um determinado género cinematográfico, de como o cinema desenvolve uma linguagem que lhe é específica, mesmo quando se alimenta de outras formas de expressão artística (como é, de resto, o caso presente, que parte da adaptação de uma obra literária.
Mystic River é um prodígio de construção, em que é o concurso de todos os elementos que dão ao filme a sua densidade e a sua especificidade, provando que um filme é sempre diferente da soma de todos os elementos que o compõem. Neste caso, a especificidade do filme de Eastwood é partir de um thriller policial, de uma história de crime, de um ‘whodunnit’, para chegar a um melodrama intenso de grande densidade psicológica, em que as personagens são levadas até ao limite da sua resistência (e também da sua verosimilhança enquanto personagens), quase como se estivessem dentro do tambor de uma máquina de centrifugação. E isto deve-se, fundamentalmente, a um domínio absoluto do plano cinematográfico, em que é sempre a câmara, o olhar da câmara, a composição do plano, a forma como os personagens se desenvolvem no plano, que confere ao filme o seu valor acrescentado, mais do que o argumento, a fotografia, a música, a montagem ou as interpretações, e não obstante neste filme todos estes elementos serem de excepcional qualidade.
Sean Penn brilha de mais neste filme, provando, mais uma vez, que será porventura o maior actor de cinema da sua geração, ou seja, o maior actor de cinema actual. Mas Tim Robberts e Kevin Bacon não brilham muito menos. Bacon, aliás, tem um desempenho notável, fazendo um papel à maneira de Eastwood: numa das cenas finais, quando Jimmy e Sean conversam no meio da rua, e Jimmy diz a Sean que a última vez que viu David foi quando ele se virou para trás no assento traseiro do carro que acabou com a infância dos três, nessa cena, dizia, é impressionante como podemos realmente ver Eastwood a fazer a personagem através do corpo de Bacon. Mas à volta deste trio maravilha, o elenco continua a ser de luxo: Laurence Fishburne que confere o olhar exterior do filme, sendo, aliás, pelo seu olhar estrangeiro que nós os espectadores seguimos toda a parte da investigação policial; Marcia Gay Harden, cujo desequilíbrio representa a vida de David sempre em perda, e Laura Linney, cuja determinação é, por seu lado, o símbolo da forma como Jimmy ganha a sua vida.