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one last bar
rosas
innersmile
Devo ao entusiasmo do Bruno a referência a Gavin Bryars, de quem comprei 'a portrait', uma compilação de obras editadas em disco durante os anos 90. O pretexto era Jesus' Blood Never Failed Me Yet (que aqui aparece em duas versões de quatro minutos cada, mas que dá perfeitamente para perceber que o limite de duração da peça é sempre o do suporte que a contém), mas estou verdadeiramente maravilhado com One Last Bar, Then Joe Can Sing: raras vezes nos é dado ouvir a música das correntes de água subterrâneas. Ou do sangue a correr nas veias de uma criança acabada de nascer.

A Quasi editou Albas, uma colecção de fragmentos, cartas, apontamentos, versões de poemas, de Sebastião Alba, anotados em papéis (em fragmentos de papéis) que o poeta ia espalhando pelos escassos lugares fixos da sua despojada deriva. O SA escolheu viver (e morrer) na margem da vida, na vida marginal, talvez por saber que apenas na margem nos é revelado o frémito do primordial, da essência. Como, por exemplo, nesta carta endereçada às filhas e que aparece no livro como manuscrito:
"1/3/92
Queridas filhas:
esse é mais um papel escrito ao sabor do pensamento errante do pp e numa das suas incursões de nómada, rotativas, obsidiantes.
O pp anda à volta de uma aldeia da memória, que se dissipa.
Comprem o concerto para violino de Brahms. Oiçam com atenção o 1º movimento e, se puderem, sejam sempre fiéis à Beleza, à gravidade inconcreta, ao sabor da aventura espiritual que é tão amargo. Vale a pena.
Amo-vos. Saudades à mamã.
pp"

Dá vontade de chorar.

É sempre curioso vermos uma coisa que achávamos nossa espalhada por aí como sendo de outrém. Por um lado é bom, há uma espécie de validação, como se essa coisa que intimamente sabíamos preciosa, fosse investida de uma autoridade exterior; mas ao mesmo tempo sentimos o venenozinho da inveja, como se alguém nos tivesse roubado uma coisa e, por ela nunca ter trespassado os limites do nosso espírito, não pudéssemos provar o roubo. 'Fica Comigo Esta Noite' é o título de uma canção (brasileira e linda), e é uma expressão admirável, que eu usei como mote de um dos contos, ou de uma das partes do conto (a terceira, se não estou em erro) Quatro Canções, que pus aqui no innersmile há uns tempos. Daquelas frases que eu tinha armazenadas no disco da minha memória para usar quando fizesse alguma coisa que merecesse tal esplendor. Hoje vi-a no escaparate da livraria, a servir de título a uma colecção de contos da Inês Pedrosa, e a um dos contos incluídos no livro. Como respeito muito a IP, e acho que é uma enorme escritora, fiquei contente: "olha, eu sou tão formidável que até a IP escolheu uma das minhas frases preferidas!!!"; mas, ao mesmo tempo, senti a amargura de ter sido despojado da titularidade dessa frase que eu trazia guardada para qualquer coisa que ainda estava para surgir. Ou não, claro! Mas, pelo sim pelo não, comprei o livro da Inês Pedrosa.