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Craveirinha
rosas
innersmile
José Craveirinha é um grande poeta. E a muitos títulos: poeta fundador da literatura de Moçambique, poeta maior da resistência ao colonialismo europeu em África, poeta português, na medida em que foi essa a sua nacionalidade durante grande parte da sua vida, grande enorme poeta da literatura em língua portuguesa.
A poesia de Craveirinha chegou a todo o lado: cantou a liberdade de forma militante e/ou celebratória, foi um dos marcos da negritude, cantou o nacionalismo africano e foi crítico sempre que a sua consciência a isso o obrigou, mas cantou também a sua cidade, o seu bairro, os vizinhos, os amigos. E, num livro comovente até à raiz do coração, cantou Maria, a mulher a quem amou na vida. Cantou com raiva, com carinho, com desprezo, com amor, com bonomia, com exaltação e em sussurro.
Não tenho dúvidas que o seu nome e os seus versos não deixarão de ser celebrados, para sempre, lá na sua pátria austral. Já não tenho tanta a certeza se a história da literatura portuguesa não deixará passar ao lado, perdendo-a, um das páginas douradas do seu século XX. Apesar de ter sido Prémio Camões, associando assim o seu nome à nossa mais acarinhada e incensada nomenclatura literária. Apesar de o seu nome não poder deixar de cruzar as linhas com que se escreve a história de Portugal no estertor do império de cinco séculos.

Não faltam poemas (e poemas, e poemas, e poemas...) que se podem invocar a propósito de Craverinha e da sua grandeza. Aliás, não é, de longe, a primeira vez que ele é para aqui chamado. Mas hoje apeteceu-me falar dele a propósito, mais do que de um poema, de uma dúzia (ou nem tanto) de versos. Versos que demonstram todas essas direcções em que a poesia de Craveirinha se espraiou. Versos que, como sempre que a poesia é grande, trazem resolvido um mistério do mundo. Ou, o que vai dar ao mesmo, a sua perplexidade.

"(...) já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe."



[O poema de onde os versos foram roubados intitula-se ÁFRICA e está integralmente disponível, para ler com a respiração suspensa e o coração a bater depressa, à sombra dos palmares.]