November 20th, 2003

rosas

conto: a velha senhora

A VELHA SENHORA

A velha senhora sentou-se no lugar do passageiro do Mercedes-Benz escuro, de último modelo, e acenou com a cabeça para o motorista negro, que pôs, suavemente, o carro em movimento. A velha senhora compôs um altivo ar 'fim de império', tentando disfarçar a avidez do olhar que lançava em redor. A tarde morria na grande cidade africana, e o sol despedia-se para lá dos montes que delimitavam o subúrbio infinito. O carro saiu do parqueamento do hotel onde a velha senhora se tinha alojado poucas horas antes, e entrou na avenida sombria ladeada de acácias floridas, que, apesar de tudo, pouco dizia à velha senhora. Não era essa a sua parte da cidade. Indicou ao motorista que voltasse para uma das longas avenidas que cruzam longitudinalmente a cidade e mandou avançar. Estava irreconhecível a avenida, que a velha senhora insistia em não chamar pelo nome recente, usando sempre os nomes das ruas da cidade do tempo da sua juventude. "Os heróis", dizia ela, "não nascem da noite para o dia. E sobretudo não são heróis a merecer nome de rua quem nunca sujou as botas na poeira desta terra". A velha senhora fez sinal ao motorista para parar em frente ao antigo cemitério. Baixou o vidro do automóvel e ficou, braço estendido para fora do carro, a olhar fixamente o arruinado mas ainda imponente portão de ferro forjado. Sem uma palavra, abriu a porta e saiu, atravessando a avenida pelo meio do trânsito caótico. O motorista apressou-se a fechar o carro e correu atrás dela. Entraram lado a lado no cemitério e, sempre sem pronunciar palavra, a velha senhora deu o braço ao homem que a acompanhava. "Por aqui", disse secamente, metendo por uma das alamedas que mal se distinguiam dos talhões circundantes, e onde eram visíveis apenas restos minúsculos do antigo cimento. Parou em frente à ruína destruída e vazia de um jazigo e, tirando um rosário da pequena mala de mão, começou a rezar em sussurro. A tarde findava rapidamente, e o motorista deu sinais de que seria conveniente saírem depressa dali. Regressaram ao carro e seguiram pela infindável avenida até que, numa esquina dominada por um antigo café, em que ainda era visível metade de um enorme e colorido anúncio luminoso exterior, a velha senhora indicou ao motorista que voltasse à direita. "Siga devagar", disse ela, num tom que era mais de ordem do que de pedido. Era uma rua estreita, sombria como quase todas as da cidade por causa das enormes copas das árvores, ladeada por moradias e um ou outro prédio baixo. "Aqui! Vire aqui à direita". O carro fez a curva e a velha senhora mandou o motorista parar. Saiu imediatamente de carro e dirigiu-se ao portão de uma vivenda. A casa era a única no quarteirão que mantinha a dignidade e a compostura de uma vivenda antiga. Tudo ao lado eram ruínas. Casas destelhadas, janelas vazias, sem vidros, muros partidos, cartazes de cartão com palavras pintadas à mão, cheias de erros de ortografia. O alcatrão da rua tinha desaparecido quase todo, abrindo enormes crateras de terra. Os passeios eram pequenos blocos de cimento partidos e incertos, rebentados pelas vastas e poderosas raízes das acácias. O motorista mais uma vez correu para o lado da velha senhora, no preciso momento em que ela se preparava para abrir o portão. O motorista impediu-a, gritando alto para dentro do muro. Veio um rapaz a correr e o motorista falou-lhe numa língua indígena que a velha senhora fingiu não perceber. O portão abriu-se e a velha senhora, sempre sem dizer nada, avançou pelo pequeno jardim. Olhou em redor, estava intacto e bem tratado o jardim. Junto a uma janela baixa, uma velha figueira prendeu o olhar da velha senhora, que se acercou e passou a palma da mão pelo tronco envelhecido da árvore. Pela primeira vez, esboçou-se um sorriso no rosto da velha senhora. O motorista e o rapaz falavam em voz baixa, o motorista num tom afirmativo, o rapaz hesitante e um pouco assustado. A velha senhora dirigiu-se à porta da casa, que ficava sob um pequeno alpendre e empurrou-a. A porta abriu devagar. A velha senhora entrou. Duas crianças, muito novas, levantaram-se a correr de um sofá e foram-se esconder atrás do rapaz, que as sossegou. A velha senhora lançou em volta um olhar de reconhecimento, fazendo movimentos afirmativos com a cabeça, quase imperceptíveis. Da sala, bem mobilada, embora com simplicidade, a velha senhora apontou para um compartimento que ficava à direita e disse baixinho "a sala de jantar". Espreitou da porta, lançou um olhar na direcção da cozinha e voltou para trás. Atravessou toda a sala, sempre sob o olhar assustado das crianças e aflito do rapaz, e começou a subir uma imponente escadaria de madeira que começava encostada à parede do lado esquerdo e subia pela parede do fundo. O motorista seguia a seu lado, dando-lhe o braço. A velha senhora subiu com esforço e vagar os degraus, de braço dado com o motorista e a mão livre fincando com força o largo corrimão torneado. Já em cima, a velha senhora esboçou um gesto em direcção a uma porta entreaberta a meio do corredor do lado direito, que, reparou o motorista à réstia de luz que iluminava o interior da casa, dava para um quarto espaçoso. A velha senhora murmurou qualquer coisa imperceptível, mas avançou com passos decisivos para a porta fechada que ficava em frente, ao fundo do corredor. O motorista antecipou-se, abriu a porta e, tacteando com o braço esticado para o interior, acendeu uma luz. No breve momento que demorou a afastar-se para trás, o motorista reparou que o quarto estava, como o resto da casa, mobilado com gosto e simplicidade, ainda que a mobília moderna ficasse um pouco perdida na vastidão do aposento. A velha senhora entrou no quarto. Reparou que a cama, de cabeceira em madeira maciça e trabalhada, estava feita, quase como se a criada, mais velha que a velha senhora, a tivesse arranjado nessa manhã estendendo a colcha de cetim rosa seco com folhos de tule. Em frente, ao lado da janela voltada para a rua, a cómoda alta encimada por um crucifixo de metal prateado e a base em veludo cor de sangue. À esquerda, entre a parede do fundo e a janela que dava para o quintal, um pesado guarda-fatos cuja porta do meio, que o tempo e a humidade não deixavam fechar completamente, permitia entrever alguns fatos de homem, escuros, direitos e ordenadamente alinhados no varão. Mas o olhar da velha senhora, depois de passar em relance pelo quarto todo, fixou-se num pequeno móvel, junto da porta, à direita. Era uma cómoda baixa, um toucador, a que a velha senhora chamava 'peciché', de madeira polida e envernizada, com três pequenas gavetas alinhadas lado a lado, e três espelhos de meio-corpo, o do meio fixo, e os laterais presos ao do meio com dobradiças de forma a poderem ser movidos em ângulos diversos. Arrumada por baixo do tampo, uma pequena banqueta almofadada com o cetim da mesma cor da colcha. Em cima do pequeno móvel, espalhados com aparente, mas cuidada, negligência, inúmeros objectos próprios da 'toilette' feminina: pentes de longos dentes e escovas macias de cedro, caixas de jóias com as tampas abertas, frascos de perfume e um lança-perfume com a bomba e a mangueira forradas a cetim, colares pendurados na moldura dos espelhos, uma caixa de música aberta com uma bailarina em posição de 'plier' sobre a superfície minúscula de um espelho, uma boneca de porcelana vestida da mesma cor rosa seco da colcha, pulseiras, anéis e brincos espalhados pelo verniz polido da madeira. E uma fotografia a preto e branco de um homem muito jovem e belo, emoldurada num passe-partout de prata. A velha senhora levantou um braço passando a mão pelos cabelos como se estivesse a pentear-se. Depois, o seu olhar firme e decidido voltou-se na direcção da cama. Passou a mão pela colcha de cetim esticada e sentou-se na borda. Aos poucos, o corpo foi descaindo até ficar semi-deitada de lado, na cama. Então, levantando os olhos para a única pessoa que estava com ela no interior do quarto, a velha senhora disse: "Foi aqui, neste quarto e nesta cama, que me amaste pela primeira vez. Foi aqui que me despiste devagar, que atiraste as minhas roupas pelo chão e, toda nua, me tomaste. Foi aqui, neste quarto, nesta cama, que me entreguei pela primeira vez a um homem. Foi aqui que pela primeira vez fui mulher. E é só aqui, neste quarto, nesta cama, que eu quero ficar. Para sempre. Contigo".