November 18th, 2003

rosas

ant attack

Ontem deixei metade de um pacote de bolachas em cima da secretária e hoje quando cheguei tinha a secretária coberta de formigas! Foi tudo limpo, mas elas continuam a descer pela parede, aos magotes ou às manadas ou qualquer coisa do género (ou mesmo em cataduplas, como dizia uma intelectual minha conhecida) e a passear por cima de tudo, nomeadamente do teclado do computador e, naturalmente, por cima de mim. E depois é aquela coisa horrível do somatismo: para além de estar sempre a catar formigas, estou sempre a sentir os seus delicados mas incortonáveis passos no corpo todo e sobretudo no couro cabeludo. A única coisa que me serve de consolo é pensar que logo vou à piscina e as formigas que entretanto me entraram para dentro dos ouvidos vão sair com a água! Agora que estou a escrever isto e deixei o rato sossegado, já andam três a passear por cima dele. Livra!, parece um conto do Kafka ou uma história qualquer que eu li da Patricia Highsmith. Eu já lhes disse, aos gritos e com jeitinho, que já não há bolachas, que já não há nada para comer, mas elas devem estar com alguma dificuldade comunicacional e não querem saber, continuam a sair por aquele buraco, a descer pela calha dos cabos do computador, a saltar o minúsculo espaço que há entre a calha e a secretária (que em termos relativos deve ser maior do que o Grand Canyon mas as formiguinhas são muito corajosas, e além disso têm muita mão de obra, por cada uma que cai, cento e cinquenta conseguem transpor o abismo), e conquistado aquele cantinho da mesa, o meu gabinete é a sua ostra!
O que vale é que, para além da somatização das comichões, eu não tenho fobia nenhuma relacionada com formigas.

A S vai na sexta-feira para Moçambique e eu estou cheio de inveja. Mas tanta inveja, que já passei a noite inteira a sonhar com Moçambique, e a voltar a ter um sonho que foi muito recorrente na altura em que lá fui. Sempre a mesma coisa, eu a descer a rua onde morava e a chegar (caraças, como é que esta gaja acha que pode andar a passear pela tecla do shift sem que lhe aconteça alguma coisa de grave?) em frente da casa onde vivi durante a infância. O curioso é que antes de lá ter ido, as casas dos sonhos eram sempre muito fantasiosas, e esta de hoje era relativamente parecida, nas cores, no volume, na densidade de elementos no jardim e na fachada, com a casa tal como a vi quando lá fui, ou se calhar como está na fotografia que tirei. Mas, claro, tratando-se de um sonho, era sempre melhor, mais rico, mais barroco, mais enfeitado, do que a realidade, de modo que a rua estava toda arranjada e havia canteiros de flores nos passeios.

Ou estou mesmo cheio de formigas a passearem-me pelo corpo, por dentro da roupa, nas costas, nos braços, nas pernas, no pescoço (na nuca então, é um movimento infernal) ou então é o meu cérebro que está infestado!