November 17th, 2003

rosas

cidades invisíveis

Mal li os primeiros parágrafos de ‘Se Numa Noite de Inverno um Viajante’, tive logo a certeza de que Italo Calvino era um dos meus escritores preferidos. Com efeito, podemos amar um escritor de que conhecemos apenas um livro. Ou mesmo somente uma página, um parágrafo ou uma frase. No limite, podemos até aceitar a possibilidade de amarmos um escritor de quem lemos apenas uma palavra.
Nessa medida, cada novo livro de Calvino que leio (novo para mim, naturalmente), apenas pode tornar mais intenso (ou mais racional, ou mais explicado) esse amor pelo escritor. Como aconteceu agora com As Cidades Invisíveis.
O livro é, para além de tudo o resto, para além do que é propriamente literário, um desafio intelectual, um jogo, pela forma como está estruturado, pelo modo como as categorias das cidades se vão organizando nos capítulos. De tal forma, que ficamos sempre com a sensação de que alguma coisa nos está a escapar, de que estamos a rodear um enigma, cujo enunciado pressentimos mas não conseguimos decifrar.
O livro, como se sabe, reproduz as conversas entre Marco Polo e o Kublai Kan, durante a qual o mercador veneziano vai relatando as cidades que supostamente visitou. As cidades, todas com nomes femininos, organizam-se em categorias: as cidades e a memória, as cidades e o desejo, as cidades e os sinais, as cidades subtis, as cidades e as trocas, as cidades e os olhos, as cidades e o nome, as cidades e os mortos, as cidades e o céu, as cidades contínuas, as cidades ocultas.
Mas de fala verdadeiramente o livro? De cidades fantásticas, em relação às quais, como nos diz Calvino logo na primeira frase do livro, nada garante que o Grão Kan acredite em tudo o que Marco Polo diz quando as descreve? De cidades fantásticas que são metáforas de outras cidades, de cidades do nosso mundo? Ou fala apenas de uma única cidade? Dos diversos aspectos, dos diferentes planos, das várias perspectivas de uma cidade? Será que o livro é um guia, metafórico e fantástico, de uma cidade? Será que Kublai Kan não acredita em tudo o que o veneziano lhe diz porque sabe que Marco Polo fala, afinal, da única cidade que conhece, a sua?

"E Polo diz: - O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segunda é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar."