November 16th, 2003

rosas

elephant

"São (...) como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror." - Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

Gus Van Sant parte do massacre do liceu de Columbine (que já tinha dado mote, e título, a Bowling For Columbine, do Michael Moore) para construir com Elephant uma admirável parábola sobre a juventude, a juventude de agora e a juventude de sempre. É um filme fabuloso, de uma beleza lancinante e terrível, como a beleza dos cordeiros inocentes que se alinham para a matança do sacrifício. Fez-me lembrar as short-stories do Raymond Carver, pedaços de vida, da vida verdadeira, escritos, ou filmados, a sangue e carne viva, pedaços de vida de onde está ausente qualquer julgamento moral, o que torna ainda mais absurda a mágoa, o sofrimento, a dor, a angústia, ou ,na mesma medida, a alegria e a felicidade. É um filme de ambiente, poético, que segue os passos dos adolescentes pelos longos e infindáveis corredores do liceu, e que respira precisamente nesses silêncios, nas pausas, no som dos gestos. É um filme que se suspende para nos devolver a nós, que o vemos, o conteúdo e o sentido das imagens, como, é isso!, um poema. É um filme de uma simplicidade desarmante, que vai buscar ao cinema experimental, ao documentarismo, não tanto a técnica, ou a inspiração, mas um certo tom de 'a verdade está a passar por aqui'. Não uma verdade absoluta, que se atire como um pano encharcado às nossas caras, mas uma verdade que vem de dentro, que vem das imagens, que vem do deambular vazio dos personagens, dos seus silêncios, dos seus gestos quotidianos. É um filme para ver com lágrimas no olhos; não por ser um filme triste, longe disso, nem deprimente ou dramático (até parece heresia usar a expressão 'dramático' a propósito deste filme), mas sim porque está qualquer de nós, da nossa essência, a passear por aqueles corredores, qualquer coisa das nossas vidas que é essencial, e que vai ser abatida ainda antes de conseguirmos identificar o que é.
Não deve ser muito arriscado dizer que este é, ate agora, o melhor filme de Van Sant, e que não é de todo improvável que venha a ser a obra-prima de uma das mais interessantes e surpreendentes carreiras do cinema americano. Com efeito, nunca se sabe muito bem onde o próximo filme de GVS nos pode levar. Do experimentalismo de Even Cowgirls Get The Blues, dos marcos do cinema indie como foram My Own Private Idaho ou o anterior Drugstore Cowboy, até ao mainstream oscarizavel de Good Will Hunting e Finding Forrester, e passando por bizarros objectos de cinema como o divertidíssimo To Die For ou essa experiência única Psycho (na realidade, uma 'refilmagem', plano por plano, do clássico de Hitchcock), sem contar com as suas celebradas colaborações com a indústria musical (e, já agora, a sua tentativa literária, Pink), O cinema de Van Sant é sempre único, interessante e arriscado, mesmo quando, e por isso mesmo, falha ou roça o fracasso.