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cartas (conto)
rosas
innersmile
CARTAS DE AMOR

1.

Meu amor
abeiro-me da janela e chove torrencialmente nesta derradeira noite de Outubro. A água escorre como um rio pela rua inclinada e talvez seja a força da corrente que mantém os faróis do teu carro presos na distância. Talvez seja a chuva que te segura algures fora da minha rua, ou a força do vento que te impede de te aproximares. Está deserta, a minha rua inclinada. Vista da minha janela, a rua é um plano vertiginoso, batida pelo vento, varrida pela chuva, transbordando o vazio da tua ausência.
Penso em afastar-me da janela. Mas sei que a sala, inteira atrás de mim, está repleta de sinais teus, de objectos que te representam, até as paredes parecem reflectir o teu retrato, branco, transparente. Há ainda um fio de fumo que se solta do cinzeiro onde pela última vez esmagaste um cigarro. O gira-discos repete a última espira de um disco que te esqueceste de tirar. O sofá tem o vinco do teu peso. E, se lhe encostar as costas da mão, sinto ainda o calor do teu corpo, um calor suave como as primeiras noites quentes da primavera, como a luz do sol de manhã a entrar pelas cortinas abertas de uma janela de um quarto, como uma radiação que se espalha pelo lençol de um corpo que dorme ao lado do nosso.
Parece que ouço de novo a tua voz, trazida pelo barulho da chuva a bater no telhado, e penso que gostava de me virar e ver-te à porta da sala, o corpo, ainda húmido do banho, enrolado numa toalha, os cabelos em desalinho: “vou-me deitar, vens?” E arrependo-me de todas as vezes que respondi “fico mais um pouco”, porque me parece que todas essas horas demoradas em que fiquei pela madrugada, deitado no sofá, a ler, foi afinal tempo deitado fora, que podia ter passado deitado ao teu lado. Um desperdício estúpido, agora que o temporal parece reter-te para sempre longe de mim.
Num impulso, pego no telemóvel e corro os menus à procura de chamadas não atendidas ou de mensagens de texto que possam ter chegado sem eu ter reparado. Nada. O telemóvel, sem o mínimo sinal de ti, parece-me uma terrível inutilidade. Abro a vidraça. O vento entra de rompante pela sala, a chuva intensa encharca-me de imediato, e eu fico parado, uma mão a segurar o telemóvel, o braço esticado a segurar o fecho da janela para me dar estabilidade, os olhos perscrutando através do manto denso que se abate dentro da sala à minha frente. Tento marcar um número de telefone, mas o turbilhão que me rodeia não me deixa sequer concentrar, fixar os gestos nas teclas correctas. Sacudo o braço livre em catapulta e atiro o telemóvel, com força, para fora da janela. Um segundo depois de o ter largado, e mesmo antes de o perder de vista, o visor ilumina-se e ouço o toque de chamada. Ainda me debruço para tentar apanhar, mas, nesse momento, parece-me que vejo os faróis do teu carro aparecerem ao cimo da rua inclinada. Sim, é o teu carro que desce a rua lentamente. Vejo-te ao volante. Consigo, apesar da chuva e do vento, ver o teu rosto, ver o teu corpo. E precipito-me ao teu encontro.


2.

Meu amor
abeiro-me da janela no preciso momento em que o sol rompe as águas da baía e se eleva, afável e majestoso, sobre a grande cidade meridional. Corro para a janela contrária, a tempo de ver as sombras dos edifícios projectarem-se, sempre mais pequenas à medida que o sol vai subindo, sobre os edifícios contíguos. São prédios altos, desenhados por janelas rasgadas e amplas varandas, que se alinham ao longo de uma avenida a perder de vista, ao longo da qual o sol vai descrever o seu traço diário. A esta hora, paira ainda, ao nível das ruas, uma luz baça, sombria, quase plúmbea, que o sol não tardará a rasgar. Essa luz mortiça, o emaranhado verde e rubro das copas das acácias, a humidade que se vai deixando colar ao alcatrão, fazem desta hora matutina o único momento de frescura que o dia vai conhecer. Passa um autocarro apinhado que estanca na esquina em frente a largar a primeira revoada de trabalhadores que vêm do vasto subúrbio trabalhar na cidade do cimento. Passa uma ou outra bicicleta, um ou outro corredor solitário, um bêbado em deriva cambaleante.
Debruçado no parapeito da varanda, subitamente refeito da exaustão da vigília, sinto-me feliz. Quero recordar o teu rosto, mas não consigo fixar os teus traços fisionómicos, como se fosses o vestígio de um fantasma que se esfuma no ar à minha frente quando o tento alcançar. De frente para esta avenida que se estende para o interior da terra infinita, tudo parece relativo e menor. Sinto-me feliz, porque me apetece fumar um cigarro mas consigo resistir à tentação de ir procurar um entre os restos da noite anterior que se desarrumam pela sala. Nem me sinto, pelo menos por enquanto, com coragem para atravessar novamente o quarto onde um corpo vazio dorme nu sobre os lençóis em desalinho.
Há coisas que eu tenho de te dizer, mas que à luz deste amanhecer não parecem urgentes. Não sei se consigo ouvir as coisas que me vais dizer quando falarmos, mas nem é essa cobardia que me impede de te ligar de imediato. Apenas não me parece urgente o que tenho de te dizer. Não faz sentido, quando se olha uma avenida vazia e imensa, quando o sol se prepara para a desfiar em arco, tornando o céu mais profundo e azul. Nem quando se vê as pessoas desembarcando dos autocarros, tagarelas e entusiasmadas como se o resto da cidade não estivesse a dormir ainda. O tempo paira lento e demorado sobre a cidade, neste hiato fresco entre o desespero de madrugada e a agitação quotidiana da manhã. E nada parece urgente neste momento.
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sopram ventos ad-versos
rosas
innersmile
3 POEMAS CURTOS PARA 1 FOTOGRAFIA

1

As ondas. As nuvens. Espuma.
A cidade. Bruma.
Réstea de luz. Que procuras?

2

O vento que trouxe
a tempestade, trouxe
também a nuvem branca.

3

Retiramo-nos quando a tarde finda.
Para trás fica a luz que se
prende ainda à superfície das casas.


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[Mário, desculpa o abuso]
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