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intolerable cruelty + kill bill
rosas
innersmile
Intolerable Cruelty é uma comédia romântica, mas, claro, tratando-se dos irmãos Coen, um filme de género é sempre mais do que uma revisitação, ou uma caricatura. Será mais uma superação, como se o género em apreço pudesse ser re-fundado. Já sabemos de antemão que pelo humor dos Coen escorre muita acidez, e IC faz justiça a essa tradição de sarcasmo e desenfreamento. Clooney e Zeta-Jones são belos e perigosos como dois escorpiões em período de acasalamento, e grande parte do segredo do filme reside em explorar uma certa antecipação de todo o manancial de maldade de que aquelas, e todas as outras, personagens, todas as roçarem o grau zero da moralidade, são capazes. Com efeito, logo após o episódio inicial, que serve como uma espécie de prólogo, sabemos que estamos perante personagens que são capazes de tudo, mas, e é isso que as salva, ou melhor, e é isso que as salva para o humor, sem nunca perderem a face e o toque de sofisticação que as anima.

De Kill Bill pode-se começar por dizer que é até agora a mais perfeita ‘encarnação’ do sistema Tarantino. Não é bem uma maneira de fazer filmes, é sobretudo uma capacidade imensa de construção narrativa, em que os diversos elementos, o argumento, a fotografia, o trabalho de câmara, a música, os efeitos sonoros, os actores, parecem obedecer a um plano supremo que apenas vamos divisando à medida que ele se estende à nossa frente.
Eu sei que isto, só por si, não nos diz nada acerca do filme, mas é difícil falar de cinema quando tudo parece ultrapassar os nossos habituais instrumentos de análise. Tarantino será um génio, mas o que mais impressiona é imaginar o imenso trabalho de preparação de um filme como Kill Bill em que tudo, a história seguramente, mas mais do que isso, parece estar sempre à beira da ruptura, do estilhaço, para logo a seguir, de uma forma quase infantilmente harmoniosa, se encaixar no todo. Sim, Kill Bill soa fácil e estimulante como uma brinquedo de criança! E se uma dose de cinefilia não é essencial para apreciar o filme, a verdade é que, como em todo o cinema de Tarantino, ela ajuda muito, pois o cinema de QT sustenta-se solidamente na história do cinema, neste caso, nos géneros menores que constituíram parte significativa do cinema industrial dos anos 70, para construir um produto que é novo e distinto.
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