November 1st, 2003

rosas

sem outra cabeça onde encostar o coração

Por vezes o único sentido que este innersmile consegue encontrar é ser uma eterna sequência de poemas, páginas soltas de poemas, um poemário desconexo e sequencial, como as sílabas que se deitam desencontradas à sombra dos palmares. Porque, por vezes, parece ser essa a única maneira de vislumbrar um sentido, deixar as palavras de encontro ao silêncio das folhas do computador, andar atrás das palavras dos outros como um caçador de borboletas, e perder de cada vez que se encontra.

Este fim-de-semana não existe. Fechou-se hoje uma porta e na próxima segunda-feira abrir-se-á uma outra. É amarga a sensação de que o que ficou para trás da porta que se fechou era incomparavelmente melhor do que o que está para além da que se vai abrir, de que o que nos espera é um jogo em que está em causa a dignidade, a franqueza, a entrega, a confiança. Mas, por ora, estamos no vazio, no campo aberto das incertezas, das incógnitas, dos homens sem rosto de quem se ouve o som das botas na escada. Estamos entre cortinas. No passo suspenso da cegonha. A que nos podemos agarrar nestas quarenta e oito horas de respiração suspensa?

Encontrei hoje mais dois livros de Daniel Faria: Homens Que São Como Lugares Mal Situados e Explicação Das Árvores E De Outros Animais. E tudo o que se pode dizer está aqui. Inábil como uma resposta.

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar


~|~

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Iluminando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior