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good bye lenin
rosas
innersmile
Good Bye Lenin é um filme indiscutivelmente terno e irresistível, uma "little story", familiar e humana, servida por uma narrativa muito pessoal, que ora faz avançar a acção em câmara rápida, numa espécie de elipse "desventrada", assim tipo para mostrar que também há vida nesses momentos inúteis em que os personagens não estão em acção, ora se suspende, quase fazendo parar o tempo (e o tempo, neste filme, é um brinquedo infantil, inteligente e enigmático como o cubo de Rubik) para deixar os personagens se espraiarem no seu drama íntimo. É, em suma, um filme simpático, que, além disso, tem ainda a virtude de se focar numa história muito "lá de casa" e na mesma passada, dar um carácter universal ao problema.

Mas há uma leitura do filme que pode ser um pouco perturbadora, nomeadamente a que tem a ver uma certa nostalgia dos tempos da cortina de ferro, ou, mais adequadamente, do muro de betão. Se essa nostalgia é de certa forma compreensível por parte dos que viviam no casulo, apesar de tudo protector e nessa medida confortável, dos regimes do leste europeu, e não estavam de todo preparados para a selva capitalista para onde foram largados, mas que apesar de tudo, e convém não esquecer, almejaram (a queda do comunismo na Europa, apesar de todas as ajudas, foi sobretudo um processo de implosão, e nem podia ser de outra forma, que estas coisas apodrecem sempre de dentro para fora), se essa nostalgia, dizia, pode ser compreendida, já não se percebe muito bem a intenção do filme que parece querer acrescentar uma película dourada de efabulação a esses tempos. A não ser, claro, que o filme se assuma conservador, e até reaccionário, o que não me parece ser o caso.

Outro aspecto que me parece interessante tem a ver com uma certa aproximação do filme à relaidade portuguesa. A história da mãe de Alex tem evidentes semelhanças com a história de Salazar para nos passarem despercebidas, e nessa medida, o filme até podia ser uma metáfora perfeita do fim do fascismo salazarista em Portugal: tal como no filme, também por cá parece que nunca deixou de haver quem cultive uma certa nostalgia pela mediocridade social ("pobrezinhos, mas honrados", "a minha política é o trabalho"), pela pequenez e pela tacanhice, que Salazar tão bem soube usar para nos manter de cabecinha baixa e disciplinada durante tantas décadas. Convém nunca esquecer que uma certa paz doméstica e fechada, protegida e toda voltada para dentro, quando o mundo lá fora arde no fogo das contradições sociais, políticas ou económicas, é sempre uma paz artificial e a prazo.
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oiro do dia
rosas
innersmile
A "conversa" que se estabeleceu entre alguns dos friends do innersmile a propósito da entrada sobre o filme Good Bye Berlin, é demasiado deliciosa e importante para ficar confinada à página dos comentários. Por isso, com um grande abraço de agradecimento aos protagonistas desta conversa, aqui fica esta entrada feita com a gentil e exclusiva contribuição, ainda que involuntária, do opiario, do retorta, da thwylla, da butterflai, do silencefreak, da metabolica e do entwinedpieces.
Bem-hajam!


opiario
2003-10-26 05:21
Eu sei tão pouco sobre o Salazarismo! (Foi o que mais me chamou a atenção no seu post). Na verdade, tenho um pensamento bastante naïf a respeito: eu não consigo entender como os portugueses permitiram tal coisa (afinal, eles são europeus, ou seja, seres superiores a nós índios. E em tudo mais perfeitos. Ditaduras nas Américas: bem, sempre foi assim. Mas na Europa?!?! Na parte da Europa que verdadeiramente conta? Incroyable.

(Sim, eu sei: meu pensamento é ridículo, mas eu avisei antes)


retorta
2003-10-26 05:29
Hitler na Alemanha
Mussolini na Itália
Franco em Espanha
Salazar em Portugal


opiario
2003-10-26 05:40
Sim, eu sei. Sim, eu sei. Sim, eu sei. Não é por falta de conhecimento histórico da Europa. É um sentimento muito indígena de "deslumbramento" com os europeus. E você sabe: nós nos sentimos assim há 500 anos... Aposto que um dos meus tataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataravós índios se sentia exatamente da mesma forma ;-)

Ouso dizer, inclusive (se bem que se algum brasileiro estiver lendo essas palavras, ele vai me crucificar), que daqui a 500 anos estaremos do mesmo jeito.

Aqui na América Latina, só não somos piores que os argentinos. Nós somos completamente fascinados pelos europeus (ok, pelos americanos também, infelizmente). Os argentinos se acham europeus. Europeus que, por algum acidente de percurso, caíram sem querer nas Américas.


thwylla
2003-10-26 07:33
Pedindo licença pela intromissão.... mas sem deixar de dizer que REALMENTE nós brasileiros não gostamos deste tipo de comentário!!!

Ora, o Brasil terá jeito sim, mas depende de todos assumirem a idéia de nação.... enquanto forem todos tão individualistas, prontos apenas a atirar pedras sem apontarem caminhos alternativos, continuaremos do mesmo jeito.

Não é uma crítica a vc... deixo isso claro! Mas é que seu comentário mexeu com minhas convicções!!

;)

Abraço para os dois!!!


butterflai
2003-10-26 05:34
Não foi uma questão de permitir ou não permitir. Não foi por acaso que o regime autoritário do Salazar (mesmo já sob o comando de Marcelo Caetano) durou 48 anos. Uma máquina muito forte a todos os níveis e repressiva o permitiram.
Além de que é preciso contextualizar a forma como Salazar subiu ao poder. A I República havia depenado os cofres do estado; os desequilíbrios faziam-se sentir em todos os sectores nacionais. Junta-se a isto a participação de Portugal na I Guerra e a derrota em La Lys. Portugal estava numa crise grave e profunda. Salazar foi visto durante muito tempo como o "salvador da pátria" que reequilibrou as finanças do país, restabeleceu a ordem e a paz.
Quando o deixaram de entender assim, a máquina repressiva do Estado era demasiado forte.
O mesmo aconteceu com o Hitler, que foi eleito pelo próprio povo, e com Mussolini e com tantos outros. Em épocas de crise é o próprio povo que escolhe e acolhe políticas autoritárias, capazes de restabelecer a ordem, seja ela a que nível for.
A História o comprova.


opiario
2003-10-26 05:57
Sim, desculpa, o verbo "permitir" teve conotações incômodas. Talvez o melhor fosse perguntar "como não tentaram mudar", mas na sua mensagem já está contida a resposta: quando "caíram na real" (como se diz aqui no Brasil), já era tarde.


butterflai
2003-10-26 06:08
Houve várias tentativas de mudança, mas sempre frustradas.
E acredito que o 25 de Abril apenas se deu em Portugal (quando passámos para um regime democrático) porque nessa altura o Salazar já tinha morrido e o, na altura chefe de Governo, Marcelo Caetano não tinha " o pulso político" do seu antecessor.


retorta
2003-10-26 07:22
O problema é que mudar custa muito em portugal, foi preciso que militares o fizessem.

Em Espanha não foi assim.


opiario
2003-10-26 05:33
Ah, só uma última coisa: me disseram que antes de ser ditador, Salazar era professor. Bem, isso eu entendo: Fernando Henrique Cardoso, antes de nos fazer passar por uma das maiores crises da nossa história, era professor também. Ele não foi ditador, foi eleito "democraticamente", mas para efeitos práticos é quase a mesma coisa (tenho para mim que nunca jamais houve aqui uma verdadeira "democracia". Mesmo o Lula só foi eleito porque a elite decidiu que era hora. O povo apenas foi manipulado e agiu de acordo, votando em massa e "legitimando" o processo todo. Mas eu bem sei o quanto o povo brasileiro pode ser manipulado. Basta lembrar do impechment do Presidente Collor, que só foi possível porque as elites prejudicadas pelo Presidente e sua família - que queriam roubar e amealhar fortuna apenas para si próprios, não permitindo que os outros políticos também o fizessem - tão assustadas e desesperadas ficaram que se viram na contigência de ter de manipular o povo para que este, afinal, botasse o Collor para fora, pois de outra forma seria impossível. Não entro aqui na questão de se Collor era ou não culpado dos crimes alegados: é óbvio que sim. Mas é óbvio também que as massas foram manipuladas).
Mas eu dizia que entendo que um professor se torne um ditador: se Salazar era mesmo professor, o Salazarismo se torna para mim - mesmo se não conheço todos os detalhes e dados históricos - um pouco mais compreensível, se bem que não perca em nada todo o seu terror e violência.


butterflai
2003-10-26 05:37
O Hitler também foi eleito democraticamente.
Era professor sim, professor de Economia em Coimbra. E foi como Ministro das Finanças que chegou ao Governo, ainda em plena ditadura militar. Como passou de simples ministro para chefe de governo isso foi fruto de uma grnde habilidade política e de um jogo de forças entre as diversas camadas sociais que ele soube manipular como ninguém.


opiario
2003-10-26 05:46
Se pensarmos sobre isso, é difícil não sentirmos um certo frêmito incômodo. Julio Cortázar dizia (se referindo à literatura, mas isso pode ser pensado num contexto político) que "qualquer nova página futura pode trazer uma página do passado" e eu fico pensando o quanto é fácil - mesmo agora, mesmo nesse mundinho globalizado - surgir aqui (ou em qualquer lugar) um novo Ditador. As condições estão se configurando há anos: crises imensas, pobreza, desespero. Ouço sempre dizerem que "é um absurdo que o Exército não faça nada". Que "no tempo da ditadura militar, certo, não havia liberdade, mas tinha-se o que comer e não havia também violência". É verdade que esses saudosistas, em geral, são pessoas mais velhas. Mas a frequência com que ouço isso é, às vezes, assustadora.


butterflai
2003-10-26 06:18
A mim assusta-me muito mais quando é dito por pessoas jovens, cuja maioria não vfaz ideia do que é viver em repressão. E assusta-me ainda mais quando se institucionaliza um Partido Nacionalista, racista, xenófobo e descriminador e, atrevo-me a dizer assassino. Aqui em Portugal, um líder de um Partido Político ( o PSR) foi espancado até à morte por meninos desse Partido Nacionalista, na sua maioria, e vou ser muito bruta, miúdos que não têm o que fazer na vida e divertem-se assim, a espancar negros, estrangeiros, militantes de partidos de esquerda. :|


silencefreak
2003-10-26 06:31
Esse situação aconteceu quando?


butterflai
2003-10-26 07:45
Outubro de 1989. E na altura ainda não era nenhum partido, mas sim um movimento nacionalista, ou Movimento de Acção Nacional.

http://opiniao.sapo.pt/s81/111390.html


metabolica
2003-10-26 10:36
...o MAN, que tinha como membro (fundador?)um Professor de Economia da FDL... se bem me lembro o Tribunal Constitucional deu-lhes na cabeça quando quiseram ser reconhecidos como partido (e como força política)... acabaram por conseguir???... (bem, em termos constitucionais Portugal é suposto preconizar a abolição de todas as formas de imperialismo, e ainda há bem pouco tempo lá andamos a suportar os EUA - por isso enfim)...

...já não me lembro de todos os pormenores, mas lembro-me de aí achar que de facto erámos um povo de costumes brandos (pelo facto de deixarmos um tipo com essas convições ainda ser regente de uma cadeira numa instituição de ensino superior)...

...é claro que agora aqui, onde vemos organizações tipo "the Church of the World Creator" (ou lá como se chama) e coisas assim serem reconhecidas como religiões e lhes serem concedido benefícios fiscais (a um grupo apologético da exterminação - embora de forma - dissimulada, de judeus, pessoas de cor, cristãos), vi então que podiamos estar pior...


opiario
2003-10-26 05:50
"Ministro das Finanças"? Nossa, fiquei arrepiado agora. Minha comparação com o FHC se tornou então mais próxima: antes de ser Presidente, Fernando Henrique foi Ministro da Economia...

Será que alguém aí já pensou em traçar um paralelo entre FHC e Salazar? Bom, em todo caso isso é chutar cachorro morto: é outra bunda que esquenta agora a augusta cadeira presidencial, em Brasília. Mas em termos puramente teóricos, e a título de divertimento, seria interessante.


butterflai
2003-10-26 06:05 (link) Select
Por acaso seria um bom tema de tese de mestrado. ;)


entwinedpieces
2003-10-26 11:21
Pois, resta dizer que eu gostei mt do filme. Qt a isso da efabulação desse suposto periodo negro, acho que é feito para dar a entender que há sempre quem esteja convictamente com algo que a maioria repudia. Não por interesse, nem por qq outra razão que não a mais pura convicção politica/social. Por muito enganados que à posteriori se venha a confirmar que estavam, para eles aquele era mm o melhor caminho.

...e ainda há a banda sonora.