October 25th, 2003

rosas

aos montes ensinando e às ervinhas

(para o Pedro)

Segunda coreografia de Olga Roriz este ano (a outra foi Jump Up and Kiss, cortesia ambas da Coimbra2003), e segundo espectáculo da Companhia Nacional de Bailado em menos de um mês (depois de Dama das Camélias).

Pedro e Inês mostra, mais uma vez, que Roriz é uma coreógrafa excepcional, com uma ideia de coreografia forte e marcante, com um sentido do espectáculo rico e faustoso, e uma capacidade de marcar o palco de forma a que cada momento do bailado podia ser isolado num plano esteticamente perfeito. Confirma-se também uma ideia que eu já trazia, a de que Olga Roriz não desenvolve um alfabeto 'ballético' muito rico, não há um show de dança no palco. E se é verdade que isso não se torna trágico por causa do conceito visual e cénico da coreografia, mais do que isso, a ideia conceptual e visual é de tal forma forte que resgata todas essas hipotéticas falhas.
É difícil traduzir para palavras emoções que são quase exclusivamente do domínio do sensorial, mas sempre se adianta que esta coreografia de Olga Roriz confirma uma acentuada pulsão erótica; está certo que toda a dança deveria ser, por princípio e definição, erótica, mas esta é, além disso, marcadamente sensual. E, ao mesmo tempo, um lirismo romântico pungente e cheio de "pathos", uma ideia de espectáculo total, onde a cenografia, os figurinos (o papel dos figurinos nesta produção dava quase para uma tese de doutoramento), a música são elementos tão perfeitos e justapostos que é quase impossível dissociar no todo as partes que o compõem. Finalmente, os bailarinos da CNB que são exímios de técnica e expressividade, mesmo quando, como é o caso, a coreografia não parece capaz de os levar aos seus limites.
Enfim, um espectáculo maior, que enobrece a cidade-berço do mito que lhe está na origem, e que devia ser obrigatório ver por todos os meninos e meninas.