October 24th, 2003

rosas

tirania

Terminou há pouco, na BBC Prime, o último dos 4 episódios da série The Experiment, de que falei há dias aqui no innersmile. A experiência teve de ser abortada um dia antes data prevista para o final, quando, depois de ter sido abandonada a separação entre guardas e prisioneiros e ter sido instaurada uma comuna, um grupo de participantes, formado por um lider e dois lugar-tenentes, se preparava para fazer um "golpe" e instalar um regime tirânico!
A principal conclusão da experiência é que a forma de evitar a tirania é evitar o vazio de poder que a precede e alimenta. Se olharmos para a história do século XX, sobretudo na Europa e nomeadamente em Portugal, vemos que não foi outro o processo que conduziu à instauração de regimes totalitários. Esta série da BBC foi fascinante a vários títulos, particularmente porque nos permitiu verificar como um grupo muito restrito de indivíduos postos em circunstâncias de tensão e disputa de poder, reagem e estruturam comportamentos que são, afinal, aqueles que reconhecemos da sociedade em geral. Talvez porque, afinal, os grandes movimentos sociais e políticos não são mais do que a transposição para a escala global de comportamentos básicos e primários, que se desencadeiam quando dois indivíduos, e não são precisos mais do que dois, partilham a necessidade do mesmo espaço vital.
rosas

mst

Mais uma vez Miguel Sousa Tavares, com elementar bom-senso e meridiana perspectiva, diz o que há a dizer acerca da "novela judiciária" (PR dixit e desta vez foi claro!): na crónica do Público de hoje e na transcrição do Diário Económico do seu comentário no telejornal de terça-feira passada na tvi (o tal em que ele teve de 'meter na ordem' a cada vez mais insuportável Moura Guedes).

Aliás, foi na tvi que MST formulou aquela que eu acho que é a mais desestabilizadora consequência da dita 'novela': "Acho que infelizmente, e deve ser a quinta vez que o digo aqui, as deficiências da instrução são tamanhas que eu acho que o grosso dos implicados vai acabar de fora, com prejuízo de acabarem dentro alguns inocentes e que jamais alguém neste país vai ter a certeza de que se chegou à verdade. Foi isso que eu acho que se conseguiu."

Concordo em absoluto e já aqui há dias o tinha dito em conversa. O que é mais grave e perturbador nesta história toda, é que qualquer que seja o desfecho, está já inscrito na verdade da história, que não vamos acreditar nele, quer em relação às condenações quer às absolvições que vão resultar da/s sentença/s. Vai permanecer para sempre, sobre os factos do caso como sobre os seus protagonistas, essa dúvida. E, como o demonstra por exemplo o caso Camarate, quando a dúvida é o que permanece, os factos são gradualmente substituídos pelas opiniões e estas pelas convicções. E em relação à história e ao passado, sobretudo quando ele é recente e traumático, as convicções e as profissões de fé são na sociedade como uma doença degenerativa e contagiosa.

Talvez os nossos políticos se devessem começar a preocupar com a forma como vamos, no futuro pós-novela, conseguir sarar todas estas feridas gangrenadas. O problema, claro, é que os políticos actuais, a maioria deles pelo menos, não conseguem ver mais longe que a ponta do nariz, nem perspectivar mais que os seus ventres rotundos!