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dá-lhe com a alma
rosas
innersmile
O Fernando Assis Pacheco é um dos maiores poetas portugueses do século passado, e um dia destes havemos todos de dar por isso. Tenho a morder-me os dedos uma entrada sobre ele, particularmente sobre o bookcionário, uma secção que ele manteve durante anos n'O Jornal, e onde pela primeira vez aprendi o amor pelos livros. Aqui há tempos, a editora Asa editou uma colecção de entrevistas feitas pelo FAP, Retratos Falados, e fiquei com a ideia de que iriam lançar mais livros com reunião de coisas dele. Li um dia destes que ia ser editado um volume de poesia. Não perco, por isso, a esperança, de um dia destes sair um livro com o bookcionário. Do FAP tenho, além dos Retratos Falados, o Benito Prada e a Musa Irregular, ainda na edição da Hiena. Para falar com franqueza, não tenho grande desgosto quando empresto livros e me ficam com eles; tudo bem, podem sempre ser repostos e como também já roubei livros (tenho a teoria de que é o único furto que deveria ser descriminalizado) ficamos, eu e os livros, quites! Mas há naturalmente excepções, e uma das grandes foi eu ter emprestado não me lembro a quem (sim, se me lembrasse ia lá e partia aquela porra toda), mas sei que há não muito tempo, o meu exemplar do Walt, primeira edição, da Bertrand, uma coisa do remoto ano de 1978, com o meu nome assinado ainda em caligrafia liceal e com as páginas amarelas do tempo!
O Fernando Assis Pacheco era senhor de uma prosa quente e envolvente, húmida de ternura, apesar de ter sido sempre, creio que assumida e propositadamente, mais jornalista do efémero do que prosador do que perdura. Foi, por isso, um escritor raro, de uma novela e um romance. E, também por isso, seria tão urgente e mandatória a reunião das suas grandes peças jornalísticas. Mas foi, para além disso tudo, e como comecei por escrever, um grandíssimo, um enormíssimo poeta.

Bom, como disse lá em cima, esta entrada sobre o FAP andava aqui a burilar há algum tempo no meu espírito, e hoje decidi-me finalmente a escrevê-la, porque fui à Musa Irregular buscar um poema especial. Intitula-se KLEINE NACHTMUSIK e é um daqueles poemas que sob a aparente simplicidade de uma pasta de executivo esconde uma poderosa bomba de ternura prestes a explodir. Quando um dia destes descobri o poema, achei logo que ele tinha destinatário certo. Por isso, no dia do seu aniversário, aqui fica o poema dedicado com um grande abraço ao jovem padawan naovouporai. É assim:

"Enquanto a minha filha Ana estuda geometria descritiva
para ver se tem mesmo bossa de arquitecta estou eu
babando a barbilha à máquina como boi de lavoura
que no fim de tudo o matadouro esperasse

sugiro que vá deitar-se apague a luz pare
de uma vez mas ela é tão obstinada como eu
e até projectar não sei que miudeza ouvirei
como raspa raspa com a caneta de aparo

ditosos pais que nas filhas se revêem pudesse este
nutrir-se de boas quentes domésticas palavras
do género ah ganda Fnando já chega olha o coirão
quando a verdade é que aguento um semieixo partido

Ana são horas no meu relógio com lampadazinha dentro
e depois isto dos versos
passados anos já não passam de enganos
manda-me lá embora queres que te aqueça leite?"
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