October 16th, 2003

rosas

botto: uma canção e dois sonetos

"Das três formas, que podemos conceber, de beleza física – a graça, a força e a perfeição -, o corpo feminino só tem a primeira, porque não pode ter beleza da força sem quebra da sua feminilidade, isto é, sem perda do seu carácter próprio; o corpo masculino pode, sem quebra da sua masculinidade, reunir a graça e a força; a perfeição só aos corpos dos deuses, se existem, é dado tê-la. Um homem, se se guiar pelo instinto sexual, e não pelo instinto estético, cantará, como poeta, só o corpo feminino. Essa atitude representa uma preocupação exclusivamente moral. O instinto sexual, normalmente tendente para o sexo oposto, é o mais rudimentar dos instintos morais. A sexualidade é uma ética animal, a primeira e a mais instintiva das éticas. Como, porém, o esteta canta a beleza sem preocupação ética, segue que a cantará onde mais a encontre, e não onde sugestões externas à estética, como a sugestão sexual, o façam procurá-la. Como se guia, pois, só pela beleza, o esteta canta de preferência o corpo masculino, por ser o corpo humano que mais elementos de beleza, dos poucos que há, pode acumular."

Este trecho é de Fernando Pessoa, e foi retirado de um artigo que Pessoa publicou em 1922 dedicado à poesia de António Botto, que figura, à laia de prefácio, na edição das Canções que eu tenho (mais adiante, Pessoa escreve ainda que "Canções é um hino ao prazer, porém não ao prazer como alegria, nem como raiva, senão simplesmente como prazer. O prazer, como o poeta o canta, nem serve de despertar a alegria da vida, nem de ministrar um antídoto a uma dor substancial constante; serve apenas de encher um vácuo espiritual, a ser conceito de vida a quem não tem nenhum.")

Botto foi o "nosso" poeta maldito. A edição de Canções no início da década de 20 do século passado, provocou uma onda de escândalo, dado o carácter assumidamente homossexual e homo-erótico dos poemas, que culminaria no exílio forçado do poeta para o Brasil (onde acabaria por morrer, vítima de atropelamento, em 1959). E realmente compreende-se todo esse terrível escândalo: ainda hoje os poemas de Botto nos surpreendem pelo modo desassombrado, quer da escolha dos temas quer do teor dos versos. Não havia, na altura, como não houve no século que quase decorreu desde então, outros poetas em Portugal (com a excepção de Al Berto?) que tenham tão assumidamente abordado não tanto a homossexualidade, como, mais do que isso, o amor e o sexo entre homens (e não só note-se, em muitos poemas Botto escreve sobre o sexo heterossexual). Mesmo os poetas universais que hoje unanimemente se aceita terem incorporado a sua condição homossexual na sua poesia, nunca foram tão explicitamente longe nas suas referências e abordagens.

Deste carácter excepcional da poesia de António Botto diz-nos ainda outro facto curioso: para um poeta largamente ignorado hoje em dia em Portugal, é muito fácil encontrar referências e poemas seus na net. Uma pesquisa simples do Google mostra isso mesmo. Sintomático: em muitos desses sites (inclusivamente estrangeiros) é óbvio que o que motiva a abordagem ou a disponibilidade dos poemas, é precisamente a perspectiva homossexual. Sendo um dos poetas que conheço há mais tempo (o meu exemplar das Canções é para aí de 78 ou 79) nunca tinha pensado nessa possibilidade de Botto, o Botto do Avestruz Todo Gris que foi um dos meus poemas de infância, ser um dos autores-referência da literatura gay!

Como é relativamente fácil encontrar poemas de António Botto na net (por exemplo, no Jornal de Poesia, aqui, ou aqui), inclusivamente o ousado poema inédito que Natália Correia revelou na sua Antologia de Poesia Erótica e Satírica (está num desses links), escolhi pôr aqui uma canção e dois sonetos, que não encontrei na net, e onde a referência homossexual não é muito, ou não é de todo, explícita.


CANÇÃO

Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ‘ais!
Pelo mistério subtil
Imponderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar
- Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!


DOIS SONETOS

Querer-te mal, porquê? – Foste quem eras:
Um corpo gentilíssimo, perfeito,
Que se amoldava ao meu e a qualquer jeito
No pântano de todas as quimeras!

Que culpa tinhas tu se ainda esperas
O lugar prometido aqui no peito
E sais da minha vida e do meu leito
Com a simplicidade que trouxeras?

A culpa tenho-a eu que fui um triste
A desejar no alto do meu sonho
Beijar a perfeição que não existe.

Fui esta coisa inútil, complicada
- Não me encontrando aonde me suponho
E encontrando-me aonde não há nada.


~*~

Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido heróis de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras –
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
- Eu sou teu camarada e teu irmão.



[Esta entrada é gentilmente dedicada ao Sr. Stockler, que a motivou e inspirou]