October 9th, 2003

rosas

ainda Fabrizio

'Na manhã seguinte, muito cedo, Fabrizio entrou numa igreja e, fixando o altar, disse humildemente:
«Pai: não vim pedir-te perdão nem agradecer-te. Só posso pedir-te perdão dos erros cometidos e, quanto às minhas opções, sabes que não tenho culpa. Não vim agradecer-te. É tal a felicidade que me invade, que é como se me fosse dada por um destino: nascida comigo, ou para mim, pelos séculos dos séculos. Vim aqui, Pai, testemunhar-te que ouvi a tua voz e identifiquei o teu sinal. Vim pedir-te que não me faças indigno dele. Vim dizer-te que, ao olhar Laurent, é a ti que descubro: tu já não és invisível, difuso, indiferente, mas vivo, concreto, actuante, confortante. Fonte de amor: amor. Ajuda-me por isso, tu que és amor, a amar. Ajuda-me a consumir-me no amor, a não temer o seu fogo, a não vacilar frente ao risco e ao medo do ridículo, a não traficar, a não aviltar, a não degradar, a não corromper. Ajuda-me a distinguir o verdadeiro amor do falso amor. Ajuda-me a não ceder às emboscadas dos inimigos do amor. Ajuda-me a suportar os ataques dos padres que, do amor, só conhecem o nome. Dos juizes que, com leis adulteradas, dão sentenças sobre o amor. Dos poetas, que elogiam os atributos, não a substância, do amor. Dos moralistas, que encarceram o amor numa prisão de dogmas. Ajuda-me, tu que és amor, agora que o teu tempo chegou.»
(...)
A carta era esta:
«Je t’ai parlé de plénitude: je veux te dire maintenant ce que je vois dans tes yeux. Chacun de nous possédait un paradis qu’un jour nous avons perdu ; la nostalgie de ce paradis nous fait vivre et quelquesfois nous fait mourir. Cela, si tu veux, Laurent, c’est de la litérature ; mais, quand je te regarde dans les yeux, et que tu me regardes un instant, ce n’est pas de la litérature : C’est le temp de Dieu. En toi, je le retrouve. Et je me retrouve mois-même. Je regardais hier soir (nous étions dans le metro) ta peau ; et je me disais : C’est ma peau. De tes mains, je disais : Ce sont mes mains. Je me sens si exalté devant cette découverte ! Je t’aime. Je n’ai plus peur. Tu es grand et beau comme le soleil ; quand tu ris, c’est un rayon de soleil qui sort de toi. Je t’aime.»'


- Carlo Coccioli, Fabrizio Lupo

O segundo trecho contém, lá pelo meio, quase ipsis verbis, uma coisa sobre a qual a monalise e eu “conversámos” um dia destes. Achei espantosa a coincidência: estava eu a percorrer os sublinhados que fui fazendo ao correr da leitura do livro, quando deparei com essa frase. E achei admirável que, logo a seguir, o Coccioli como que nos dá a resposta, a única resposta possível, para as nossas dúvidas e para as nossas perplexidades. Por isso, minha amiga, esta entrada, com as duas citações do Carlo Coccioli, é-te naturalmente dedicada.
No texto do livro, este extracto da carta em francês segue-se quase imediatamente ao primeiro trecho. Que eu acho sublime. Intenso, profundo, desesperado. E se procurarmos na música das palavras e no ritmo das frases, reparamos que há uma canção escondida neste pedaço de prosa.

Este livro, Fabrizio Lupo, está comigo desde o princípio do Verão. Vou lendo, interrompo, retomo mais à frente, largo-o, pego-lhe de novo, releio, sublinho, anoto. É um livro muito irregular e desequilibrado, há trechos que pedem que os dedos os desfolhem mais depressa do que os olhos, e outros que pedem demora e contemplação. Mas é seguramente, ou vai ser, um dos meus livros, um dos livros que vai ficar comigo. Daqueles a que, sei-o já, hei-de voltar sempre, nem que seja, num dia em que esteja mais desencontrado, para procurar nele um gesto, uma reflexão, um sentimento, uma revolta, um sorriso, uma ingenuidade. Uma sombra. Uma silhueta. Por vezes, mesmo, um retrato a corpo inteiro.
rosas

a tripeça

Fui tocado 'do' vírus satânico. Sinto-me já a cair da tripeça...
Seguindo as pegadas dos blogs A Corneta e o Juramento Sem Bandeira, cheguei a este blog e à sa espectacular entrada única, um texto aparentemente publicado no jornal O Dia, por Antero da Silva Resende. Lembro-me vagamente de ASR ter sido presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e não sabia mais nada dele até ter lido este magnífico texto (espero que não tirem o blog da net, mas o Juramento Sem Bandeira reproduz o texto integral na entrada do dia 5 de Outubro). A sério, eu que até achava que aquele dia 27 de Setembro tinha sido uma extraordinária jornada pelo ameno e nada polémico (e, no caso vertente, luxuoso) mundo do entertenimento de massas, fico logo mais orgulhoso por ter sido um dos quarenta e tal mil celebrantes de um ofício diabólico e maligno. Satânico, pois. Como o vírus 'de' que fui tocado e que me está a fazer cair da tripeça.

A decisão de ontem do Tribunal da Relação de mandar libertar Paulo Pedroso, um dos arguidos presos preventivamente no caso da pedofília, causa algumas perplexidades e ainda mais dúvidas. Uma delas, que me parece de particular gravidade: como é que um tribunal superior que se recusou, ao abrigo de um pormenor técnico de natureza processual, a conhecer um recurso interposto da decisão de um tribunal de primeira instância, vem, dois meses e meio depois, no seguimento de uma decisão do tribunal constitucional, e sempre com o arguido em causa detido sob prisão preventiva, desconsiderar tão liminarmente os fundamentos dessa decisão de cujo recurso tinha recusado apreciar? Como é que um juiz pode conviver com a sua consciência, sabendo que um cidadão esteve injustamente detido pelo menos durante dois meses e meio, apenas porque o tribunal de que faz parte recusou, sem fundamento legal, apreciar um recurso?
Os tribunais não devem ser templos supremos e inacessíveis que detêm uma verdade formal a qualquer preço. A primeira qualidade necessária para se ser juiz, deveria, para além da necessária e exigente preparação técnica, ser uma enorme dose de humildade: para saber que nos foi concedida a todos essa superior capacidade de errar, de cometer erros. E que um especial dever de humildade, uma humildade acrescida por assim dizer, deveria ser apanágio daqueles a quem incumbe a função social de apreciar os erros dos outros. Porque, quando erram, e são capazes de errar tanto e tão frequentemente como qualquer um dos outros 'nós', o seu erro como que se soma ao erro original, àquele erro que lhes incumbe apreciar. E, por isso, erram duas vezes.

Fiquei satisfeito com a libertação de Paulo Pedroso. Porque acho que ele, como qualquer outro cidadão comum, foi vítima de um tropeção menos claro do sistema judicial. E a justiça penal mexe com valores tão essenciais e primários, que não se pode dar ao luxo de tropeçar. Mas a satisfação passou quando vi as cenas lamentáveis no Parlamento (e que tinham começado à porta do estabelecimento prisional onde Pedroso estava detido) com o tumulto voraz dos 'media'. E tinha sido tão fácil pôr umas barreiras metálicas a definir o lugar dos 'news men'. Mas não, os políticos (e não só) sabem que a comoção causada pela confusão, pelos atropelos, pelo tumulto, ajudam a criar o efeito excepcional e a sublimar o momento. Depois queixam-se: alimentam o monstro, e depois queixam-se quando ele morde.